Nota #4 [17/09/2013]

Na passagem que lemos do livro São Paulo (do final da p.14 até o final da p.20), Badiou apresenta sua teoria da ideologia enquanto ideologia culturalista e relativista e mostra a sua inteira cumplicidade com a lógica globalizada do capital. Trata-se da cumplicidade entre a ideologia baseada na lógica identitária e a homogeneização abstrata do capital.

Badiou começa sua exposição com um fato, a máxima do partido de Le Pen: A França para os franceses, que ilustra uma prática política baseada na identidade ser francês. Ele indaga, então, o que é um francês? Respondendo que, para Le Pen, não existe nenhuma resposta sustentável a não ser a perseguição de pessoas designadas como não francesas. E ele marca que essa política discriminatória tem tanto o apoio dos capitalistas, que dizem que o desemprego proíbe qualquer acolhida, quanto dos republicanos, que dizem que os estrangeiros só podem ser tolerados com a condição de se integrarem às instituições francesas.

Badiou descreve essa política identitária como uma comunitarização do espaço público. Isso significa que o Estado, que teria como função fundamental garantir os direitos de todos os cidadãos, baseado numa mesma e única lei para todos, funciona de acordo com três regiões distintas da lei: 1) a lei para os franceses, 2) a lei para os estrangeiros integrados ou integráveis e 3) a lei para os estrangeiros não integrados ou não integráveis. Desse modo, primeiro vem a averiguação identitária e depois a própria definição e a aplicação da lei. [Talvez isso aponte para o fato de que hoje em dia o Estado sequer funcionaria como uma ficção unitária para compensar as desigualdades sociais, como seria o caso para a concepção clássica do Estado como aparelho repressor a serviço da classe dominante.]

Contra essa precedência da identidade em relação à lei, onde é a identidade que funda a própria lei, Badiou evoca Paulo quando este propõe a indistinção entre as identidades: Não há mais judeu nem grego, não há mais escravo nem livre, não mais homem nem mulher. E substituindo os termos religiosos – Deus e Bem – empregados por Paulo, Badiou diz que, diante da verdade e das conseqüências desta (fidelidade) não há nenhuma distinção entre as pessoas.

1) A ampliação dos automatismos do capital

O mundo configurado como um mercado mundial está baseado na homogeneização abstrata onde tudo o que circula cai em uma unidade de conta. No entanto, quanto maior a circulação de coisas (mercadorias), maior o n° de regulamentos que proíbem a circulação de pessoas. Por um lado, a livre circulação do que se deixa contar, principalmente dos capitais (que é a conta da conta), por outro, o impedimento da circulação do incontável, isto é, da infinidade que é uma vida humana singular.

2) O processo de fragmentação em identidades fechadas

A criação de identidades comunitárias, como a das mulheres, dos homossexuais, dos deficientes etc. movimentam o mercado. Este se amplia ainda mais com a combinação de traços predicativos como a de homossexuais negros, sérvios inválidos, católicos pedófilos etc. Essas identidades criam uma imagem social que autoriza produtos novos, revistas especializadas, programas de debates etc. Enfim, a lógica identitária torna contável a infinidade da existência humana singular.

[Tratar-se-ia aqui de uma leitura badiouiana do fetichismo da mercadoria?]

Badiou opõe à expansão homogênea do capital e à lógica identitária o que ele chama de processo de verdade. Este rompe com o princípio de conta que rege a situação e organiza a sua repetição. A verdade se subtrai à conta. Além disso, ele rompe com a singularidade identitária. A verdade surge como singularidade imediatamente universalizável.

 

O mundo contemporâneo é, no entanto, duplamente hostil aos processos de verdade. No lugar dos processos de verdade: arte, ciência, política e amor, a universalidade abstrata do capital propõe o sistema homogêneo cultura-técnica-gestão-sexualidade. Tal sistema funcionaria como o sintoma dessa hostilidade: 1) a cultura recalca a arte, 2) a técnica substitui a ciência, 3) a gestão assume o lugar da política e 4) a sexualidade oblitera o amor. A lógica identitária, por sua vez, imprime nos processos de verdade o seu caráter culturalista e relativista: 1) não existe A cultura, mas sim a cultura de um subconjunto, 2) qualquer técnica – desde o xamanismo até os antibióticos – é considerada como um pensamento científico, 3) a política consiste na gestão de traços identitários e 4) o amor se reduz ora a um comportamento sexual específico que deve ser reconhecido como a manifestação de uma identidade minoritária, ora às concepções arcaicas culturalmente estabelecidas.

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