Nota #4 [24/03/2015] (RJ)

Paulo Arantes chama de “o novo tempo do mundo” o tempo cujo horizonte de expectativa (conceito de Koselleck) foi se comprimindo entre 1500 e a nossa época: antes do senso de tempo histórico moderno, esse lugar futuro para onde iam nossas expectativas era a vida após a morte, depois virou a vida após a revolução, depois a vida após a guerra mundial… até o tempo atual, onde as crises do Capital, que apareciam disfarçada por baixo desses outros nomes, religiosos (crise feudal), políticos (crise do capitalismo industrial), bélicos (crise do capitalismo tardio), aparece nua e crua como um futuro contido no presente, a constante crise do capital globalizado. Não há mais horizonte futuro de expectativa, cabe a cada um, a cada pequeno agrupamento, descolar o máximo que pode o presente de uma precária ideia de futuro, mantida à duras penas no limite do próprio presente – numa espécie de ameaça infernal de retorno ao tempo pagão,onde tudo o que há pela frente é uma espécie de círculo eterno. Paulo Arantes chama isso, seguindo Christopher Lasch, de “era das expectativas decrescentes”.

Arantes sugere que é a luz dessa história – a história do conceito de história, de suas modulações e contrações – que o conceito de política marxista se exauriu: inventado numa época onde a revolução nomeava esse ponto futuro onde podíamos depositar nossas expectativas, a política marxista focou acima de tudo nos meios para atingir esse fim, e relegou à bricolagem teórica das lutas anti-coloniais a tarefa de desenvolver um conceito de política que fosse capaz de sobreviver à total extinção das expectativas futuras – um conceito de política como “endereçamento das expectativas sociais”, como construção de instituições capazes de acolher expectativas sociais, ou seja, capaz de construir o lugar que antes contávamos com as crises do Capital – e suas falsas promessas de que seus limites seriam limitações – para manter por nós.

Me parece que há uma forte ressonância entre esse diagnóstico e as posições de nossos quatro autores de base: Agamben (teoria do tempo messiânico, crítica do paradigma do campo de concentração), Zizek (teoria do ato, afirmação que a satisfação presente de impossibilidades futuras é uma categoria política), Badiou (teoria do Evento como acontecimento passado/presente, teoria da fidelidade como construção de um para-estado) e Rancière (crítica do “comunismo por vir” em favor da experimentação local e presente dos operários, teoria da emancipação que parte da igualdade e não vai em sua direção).

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