NOTA #4 [31/07/2018] (RJ I)

Estive num evento promovido também pelo CEII, cujo temática geral e autor central sinceramente me escapam. Uma das falas no evento foi do nosso Mais-Um. Além de não estar exatamente inteirado acerca das linhas de reflexão possíveis ao evento, não pude acompanhá-la teoricamente porque estava presente cumprindo uma tarefa remunerada para o registro das atividades do dia. 
 
Terminei mais ou menos atento em função de uma intervenção do público, tanto por se tratar de um companheiro estimado por nós quanto pelo seu esforço de fazer uma crítica à maneira como a ideia de progresso havia sido representada pelo nosso camarada ceiiano. A meu ver, o pano de fundo da divergência, ao menos num plano mais imediato, seria a noção de futuro à esquerda. Mais concentradamente, penso que o companheiro buscava sinalizar o sentido da noção de progresso para a construção de alternativas positivas contemporâneas, enquanto que nosso Mais-Um relativizava a pertinência da mesma. Astutamente, sem atribuir eurocentrismo à noção, a crítica de nosso camarada apontava o caráter temporalmente (nem historicamente) localizado (nem geograficamente) da ideia de progresso. Numa palavra, como se o ideário civilizatório do progresso como uma ideia de ascensão absoluta já tivesse cumprido seu papel na modernidade, a despeito de Norte ou Sul, Centro ou Periferia, direita ou esquerda. Restando dele apenas seu espectro sobre os homens. 
 
Aludindo rapidamente à sua experiência profissional na clínica para exprimir seu ponto de vista, nosso Mais-Um fez alusão à histórias de sofrimento pessoal, cuja distinção decorre da pregnância deste ideário na vida cotidiana. Por analogia ou homologia, não sei dizer, nosso camarada então apontou como certos tipos de sofrimento parecem ser expressão da crença (uso “crença”, claro, sem qualquer conotação analítica) dos pacientes em replicar uma trajetória socialmente ascendente por ocasião das circunstâncias abertas recentemente no país. Numa palavra, como nações em desenvolvimento, eles aspiram e agem como partes da referida história do progresso da civilização humana. 
 
Como não acompanho o debate do evento nem mesmo a discussão entre o camarada e nosso estimado companheiro, é possível que eu esteja atrasado. Ocorre que vendo a discussão do ponto de vista de uma pessoa, por assim dizer, que sofre como sofrem as nações em desenvolvimento, a saber, constrangido pela impossibilidade da tal marcha ascendente, acho que vale um comentário a favor do camarada, porém contra seu argumento em relação ao companheiro. Considerando que a divergência entre ambos me pareceu ser de projeto (“abandonar ou defender o progresso como ideia?”), o que quero sinalizar é que o que é realmente terrível não é fato do caráter anacrônico do progresso, tornando inútil qualquer associação com ele, mas não haver lugar para onde ir, que não seja simplesmente para frente, depois que ele te alcança. 
 
Sem querer ganhar discussão à base de “carteirada moral”, mas me usando apenas para tentar expor um argumento a partir do que disse nosso Mais-um, acho que o pior momento da minha vida não foi quando me caiu a ficha em 2016 ou 2017 que o curso que percorri entre 2004 e 2015 se fechou e era inútil prosseguir, mas que após este fechamento eu não tinha um lugar porque, afinal de contas, eu fiz este percurso. Em outras palavras, o pior não tem sido a extensão dos meus fracassos profissionais na universidade na minha vida econômica. Seus efeitos são horríveis na minha vida psicológica, mas não só pelas expectativas que venho cegamente nutrindo por causa do percurso que fiz, mas fundamentalmente porque é como se eu não pudesse deixar de continuar “apostando neste jogo” (nas minhas contas, eu já “dobrei a aposta” umas cinco vezes, desde que comecei minha graduação). Então, meu palpite é que o que realmente é duro não é a percepção de que a ascensão ou progresso é só um “fantasma”, nem o esforço físico e anímico para permanecer sua companhia, mas que não há volta para trás após ser assombrado por ele (por exemplo, a certa altura do colapso, para não falar do comércio no Saara, em que tentei ser de balconista à auxiliar de serviços gerais, não consegui um emprego de motorista no início do doutorado porque não sei dirigir; não sei dirigir porque economicamente jamais estive perto de um carro; entre outras razões econômicas, ao início da minha vida adulta, entrando na universidade, “apostei” que valia a pena ficar duro, priorizando estudar, ao contrário de outros amigos que, como jovens adultos, queriam um dinheiro na mão para, entre outras coisas, “tirar carteira”, “pegar uma moto” etc). 
 
Voltando para o camarada e o companheiro, sem querer ser politicamente pessimista, ante à divisão deles entre decidir abandonar ou defender a ideia de progresso como desenvolvimento de uma história universal de ascensão, mencionando o Schwarz, que também foi citado em algum momento do evento, eu diria assim: um país, especialmente se atrasado, enquanto país, sobretudo hoje, só pode continuar se comportando positivamente em relação ao progresso. Não se trata de “projeto”, mas da inerência de ser país. 

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