Nota #5 [03/12/2012]

A homologia entre o método interpretativo de Freud e Marx vai além da busca do conteúdo latente, desejo ou tempo de trabalho, subjacente ao fascínio exercido pelo sonho ou pela mercadoria. O segredo a ser desvelado não está em algum conteúdo por trás de sua forma fascinante, mas na forma ela própria através da qual esses conteúdos são “disfarçados”. Examinemos o caso em Freud e Marx.

Freud

Muitos críticos de Freud compreendem mal o método interpretativo proposto na análise dos sonhos. Não se deve confundir o desejo inconsciente, efetivo alvo da análise, com o “pensamento latente”, isto é, a significação do sonho.  Trata-se sempre de três momentos: o texto manifesto do sonho, o conteúdo ou o pensamento latente do sonho (que não é necessariamente sexual), e o desejo manifesto que se articula no sonho. “No fundo, os sonhos nada mais são do que uma forma particular de pensamento, possibilitada pelas condições do estado de sono. É o trabalho do sonho que cria as condições dessa forma, e só ele é a essência do sonho – a explicação de sua natureza familiar”, diz Freud.

Duas etapas na análise, portanto:

– Passo “hermenêutico” que revela uma mensagem recalcada por detrás do aspecto aparentemente contingente do rébus do sonho;

– Se deter na perlaboração do pensamento latente pelo trabalho do sonho (os mecanismos de deslocamento, condensação e figuração do conteúdo das palavras ou das sílabas, etc.)

Zizek: “O desejo inconsciente articula-se precisamente através do trabalho de dissimulação do “núcleo” do sonho, de seu pensamento latente, no trabalho de disfarce deste conteúdo-núcleo através de sua tradução no enigma cifrado do sonho.” O pensamento latente, tomado nele mesmo, não é necessariamente sexual, não tem nada de inconsciente e é formulável em sintaxe natural. O desejo inconsciente, por sua vez, é constitutivamente recalcado.

Marx

Homologamente, a análise marxista procede em dois tempos:

– Passo “econômico-político”que consiste em recusar a determinação contingente do valor das mercadorias em vista do tempo de trabalho socialmente investido na sua produção;

– Desmontagem do procedimento de fetichização. Afinal, de onde provém o caráter enigmático da forma mercadoria como produto do trabalho?

Sohn Rethel : postula relação entre a forma da mercadoria e o sujeito transcendental. Mas em que medida a análise de um fenômeno intramundano, como a troca de mercadorias, será capaz de nos fornecer a chave da teoria do conhecimento? Antes que o pensamento pudesse chegar à abstração pura, a abstração já era atuante na efetividade social do mercado, de forma dupla: abstração do caráter intercambiável da mercadoria no ato de troca; abstração de sua determinação concreta. Para SR, o ato de abstração contido no processo efetivo da troca das mercadorias (abstração real) é o inconsciente (recalcado) do sujeito transcendental.

No momento da troca as propriedades particulares dos objetos são negligenciadas em vista do seu valor de troca, como se (als ob) a mercadoria estivesse subtraída ao mecanismo da geração e da corrupção, tal como ocorre paradigmaticamente a propósito da materialidade sublime do dinheiro, que é tratado, fetichisticamente, como substância incriada e imperecível. O que o faz menos depender da sanção de um grande Outro simbólico (a casa da Moeda).

A abstração independe das propriedades empíricas dos objetos, mas tampouco se refere a um processo que se desenvolva no interior da subjetividade. Ela é descentrada em relação ao eu pensante, ela não é o pensamento embora tenha a forma do pensamento. O Simbólico é precisamente essa ordem formal que vem como um terceiro registro frente ao par interno/externo.

A Filosofia se define pela exclusão do simbólico como esta Outra cena na qual a verdade filosófica é encenada sem que a consciência se dê conta disso. Assim como ocorre no caso da alienação filosófica, a consciência prática dos indivíduos envolvidos no ato de troca envolve um desconhecimento que atua como condição sem a qual não desta última. (Obs paralela: Foucault remete as relações de conhecimento às relações sociais de poder, presentes nas formas jurídicas de se resolver um litígio. Assim, por exemplo, a física experimental de Bacon teria como solo genealógico a forma inquisitorial de extração da verdade. Em ambos os casos, trata-se  de “torturar” os materiais, deles extraindo uma espécie de “testemunho”) .

Sohn-Rethel: “A troca como forma sócio sintética do comércio se encarrega por si só da cegueira… Aqui a socialização só pode se desenrolar sem ser percebida. A consciência dela exigiria uma reflexão que já não seria compatível com o ato de troca; a observação do processo de socialização lhe cortaria a continuidade. Esse não-saber quanto à realidade faz parte de sua essência.” (Grifo nosso)

Essa dimensão social recalcada retorna sob a forma de seu contrário, isto é, a da razão universal voltada para a observação da natureza.

Como no caso do inconsciente freudiano estamos aqui às voltas com uma entidade cuja existência implica um não-saber positivo, e cujo recalque é a condição de vigência do Eu imaginário.

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