NOTA #5 [06/06/2017] (RJ I)

No meio de um bloqueio de nota (aquele momento em que você – ou melhor, eu – tem a sensação de que todo tema que te ocorre – e eles são poucos, limitados, e só chegam à força e artificialmente – é menor, sem qualquer relevância ou text appeal e não interessará a ninguém, nem mesmo a você e que escrever sobre ele te fará parecer (ou revelar) imbecil (mesmo que ninguém, ou poucos, saibam que você é o imbecil, dado o anonimato da nota), mesmo que na reunião anterior o tema da nota de trabalho tenha surgido, virado piada (séria), com muitos confessando publicamente de suas transgressões e/ou contestações da Lei da nota, e outros sublinhando seu caráter meramente formal e protocolar (o que apenas te faz recordar do impacto “conteudístico” que isso tem) e apesar de você já ter aderido sem reservas à ideia da nota e achá-la muito inspirada e perspicaz) pensei em escrever sobre o próprio bloqueio e requentar algo que pensei sobre a nota.

Em uma nota de trabalho, cerca de duas semanas atrás, alguém questionou o anonimato das notas argumentando que deveríamos nos identificar para resolver os problemas de frente. (ou algo neste sentido, está lá nos arquivos das notas). Discordei dessa colocação, porque a meu ver o anonimato das notas era interessante não porque assegurava que alguém mais inibido –por timidez ou por outro motivo –  tivesse sua identidade preservada, mas porque o anonimato permitia justamente a dissolução da identidade naqueles empenhados em escrever uma nota, na medida em que suas ideias se tornavam ideias sem dono, sem autoria; podendo assim circular como uma espécie de ideia coletiva (ou comum). Achava que isso era uma forma bastante interessante de testar na prática algumas questões a que a ideia de comunismo me remetiam: de desintegração da posse, da identidade, da noção de indivíduo. Enfim, a nota colocaria em questão o narcisismo em um nível extraordinário e onde ele pegava bastante: na questão do nome (talvez uma das poucas coisas que não estamos dispostos a abrir mão: de que nossa criação (ou objeto ou obra), seja ela qual for, esteja associada a nosso nome; aquele fruto de nossas mãos que queremos que seja identificado como tendo sido produzido por nós e que melhor nos representa para o mundo.) Se alguém podia pôr em circulação uma ideia possivelmente maravilhosa e não subscrevê -la, desvencilhando-se do desejo de que essa seja reconhecidamente sua ideia, então me pareceu que o comum era possível. Além disso, havia sempre a possibilidade de sua nota super elaborada não ser lida, ser desconsiderada, ou não ser compreendida. Ou seja, de que ela não tivesse qualquer relevância. E era pelo menos assim que eu via o dispositivo, como um pequeno experimento de despossessão.

Contudo, hoje tive a oportunidade de ver um outro lado da nota de trabalho, bem menos louvável. Foi a primeira vez de bloqueio. Antes de escrever esta que está aqui, pensei em inúmeros temas, um pior do que o outro, de modo que escrever a nota se tornou um pequeno suplício. Atormentado pela falta de ideias, comecei a pensar no porquê deste tormento e resolvi escrever isso, tornando a dificuldade em objeto de nota (mais ou menos). Contudo, isso também me fez reconsiderar minha ideia original, reputando-a um pouco ingênua e entusiasmada além da conta. Talvez não estivesse totalmente errada, porém, minha preocupação fora do comum com o que deveria ou não ser incluído na nota, com o que eu considerava como portador do “status” de nota, depunha contra a noção de que o anonimato poderia de fato embargar o narcisismo, mesmo que fosse só por este momento e espaço daqui; antes, parecia colocá-lo em relevo. (talvez porque na semana passada recordaram que o anonimato é ele próprio relativo, há meios de saber quem escreveu qual nota; ademais, o estilo e o tema escolhido também podem por si denunciar algumas pessoas para outras mais familiarizadas com aqueles).

Por último, acabei mesmo me pondo a questão de se o “grau zero” do narcisismo, no sentido aqui exposto e que enxerguei num primeiro momento ser possível na nota, seria algo politicamente produtivo de se ter como meta ou mesmo se seria possível (afinal de contas, ainda que ninguém saiba da autoria, o Outro sabe, e é para ele que escrevemos cartas que jogamos fora e notas de trabalho cujo remetente é desconhecido). Não cheguei à conclusão alguma.

 

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