Nota #5 [06/08/2013]

Da função instituinte do Secretário-Geral

“E aconteceu que, indo em viagem, entrou em uma certa aldeia; e uma mulher, por nome Marta, o recebeu em sua casa. E esta tinha uma irmã, chamada Maria, a qual, sentada aos pés do Senhor, ouvia a sua palavra. Marta, porém, afadigava-se na contínua lida da casa; e apresentou-se (diante de Jesus), e disse: “Senhor, não se te dá que minha irmã me tenha deixado só com o serviço da casa?” E o senhor, respondendo, disse-lhe: “Marta, Marta, tu afadigava-se e andas inquieta com muitas coisas. Entretanto uma só coisa é necessária. Maria escolheu a melhor parte, que lhe não será tirada”.” (Lucas 10, 38-41)
Em seu sermão A excelência de Marta sobre Maria [1], Mestre Eckhart discorre sobre a famosa cena do evangelho de Lucas. Na interpretação habitual desta passagem da Bíblia, Marta, por meio de um pedido a Jesus, teria repreendido Maria por esta ter se descuidado dos afazeres da casa, preferindo naquele momento escutar a Palavra do visitante. Por isso Marta não teria sentido de forma tão plena a fé como Maria sentiu na presença de Jesus. Marta, preocupada demais com as “coisas terrenas”, não estaria no caminho de Deus tal como Maria. A resposta de Jesus seria uma censura a Marta. Nesse sentido, Maria teria maior importância que Marta. Contudo, na interpretação de Mestre Eckhart se dá diferente.
Para Mestre Eckhart, Marta não repreende Maria por aquela não ter tanta fé como esta, mas justamente por Marta já estar no caminho de Deus e por talvez ter visto na atitude da jovem irmã um momento de júbilo desmedido. A resposta de Jesus não seria em tom de censura, mas de quietação (por isso a repetição do nome de Marta, como se ali Ele estivesse dando uma resposta carinhosa à irmã zelosa). Diz Eckhart, “Marta receava que sua irmã ficasse parada naquela doçura e naquele prazer; por isso desejava que ela amadurecesse como ela mesma. Por isso falou Jesus e entendeu dizer: Fica despreocupada, Marta, ela (também) optou pela melhor parte. Estas coisas aqui hão de se desvanecer. A maior graça que uma criatura pode receber há de ser concedida também a ela. Será também ela bem-aventurada como tu!”(p.176).
O fato de Marta enfatizar a lida com as coisas não é indicativo que ela privilegie a vida material pela espiritual, mas o contrário, que a convocação de Maria para que a ajude na casa é para melhor receber o Senhor. Era a forma que Marta teria encontrado para agradecer aquela que era “a suma dignidade do hóspede” (p170), isto é, a Presença de Deus. Fatigar-se na lida com a casa não é um mero preciosismo com as coisas, mas demonstração de cuidado, de carinho.
Marta repreende a irmã por conhecer seu desejo na fé e com receio de um suposto desmedido. Marta estava cuidando daquilo que Maria via como o mais valioso, mas que ainda não conhecia. Lembra Eckhart, “Maria estava tão repleta de desejo que anelava por algo, sem saber exatamente o que é que desejava” (p.172). Foi por zelo pelo que era de mais precioso para irmã que Marta a repreendeu.
Cito essa interpretação de Mestre Eckhart de modo a tentar fazer uma primeira delimitação da função instituinte do nosso Secretário-Geral. Qual a função do nosso Secretário-Geral? Certamente não se restringe a uma função burocrática. Seria um erro crasso considerá-lo um técnico-administrativo. Não que ele não exerça tarefas administrativas, mas que a execução destas tarefas ultrapassa a mera burocracia. Por isso que dizemos “nosso” Secretário-Geral. Não por delimitar ele de outros Secretários, mas porque ele participa do nosso ser. Pensemos no futebol: assim como dizemos “sou tricolor”, “sou vascaíno”, “sou flamenguista” (isso é possível? rs), “sou botafoguense” etc, e por isso repetimos “meu Fluminense”, “meu Vasco”, assim também “somos o CEII”, e o Secretário-Geral é “nosso” no sentido que ele informa algo do nosso ser. Mas o que ele informa do “nosso ser”?
Arriscaria a primeira delimitação dizendo que o Secretário-Geral é o “membro exemplar” do CEII. Digo exemplar no sentido tal como na Marta de Eckhart (mas que talvez também poderia ser no sentido Agambeniano). Marta é exemplar para Maria. Não que Marta seja a Maria no futuro simplesmente, mas que Marta no momento da cena é Marta realizada e Maria é ainda um por vir de Maria. É nesse sentido que o Secretário-Geral é exemplar. Ele sabe do nosso desejo não porque ele tenha alguma bola de cristal do inconsciente, mas nisso que é sua disposição para sustentar o CEII no mundo ele está experimentado. Mesmo que a pessoa que encarne a função de Secretário-Geral seja mais jovem ou mesmo membro mais recente do CEII – não importa. No trato com o desejo, o tempo é outro. A pessoa que encarna a função de Secretário-Geral empresta seu corpo ao exemplo.
Por isso que nossa identificação inicial deve ser com o Secretário-Geral (e não com o Mais-Um, o que poderíamos supor em princípio). É o zelo do Secretário-Geral nas coisas do CEII e no apoio ao Mais-Um (que pode ser qualquer um) que devemos encontrar a disciplina de entrega para aquilo que não existe. Fé no que não existe e disciplina no cuidado com o CEII: eis o que há de mais precioso na nossa aposta e que ainda não sabemos, exceto o Secretário-Geral.
“Também Maria tinha sido uma tal Marta antes de se tornar uma tal Maria; pois quando ainda estava sentada aos pés do Senhor, ela ainda não era a verdadeira Maria: Ela já o era segundo o seu nome, mas não segundo o seu ser; pois ela ainda se detinha na delícia e no doce sentimento, mas já tinha entrado no escola de Jesus e começara a aprender a viver. Marta ao contrário já estava lá madura. Por isso disse: «Senhor, manda que ela se levante!» — como se quisesse dizer: «Senhor, eu gostaria que ela não ficasse aí sentada e entregue aos seus doces sentimentos; gostaria mais se ela aprendesse a viver, para que possuísse a vida de um modo mais essencial. Manda que ela se levante, para que se torne madura e perfeita». Ela ainda não se chamava com razão Maria, quando se achava sentada aos pés de Jesus. Isto é que eu chamo de Maria: um corpo bem treinado no trabalho, submissão à sábia doutrina. Obediência porém para mim é isto: que a vontade obedeça ao que a inteligência iluminada manda que se faça.” (p.178)
[1] MESTRE ECKHART. O livro da Divina Consolação e outros textos seletos. Petrópolis, RJ: Vozes, 1991.

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