NOTA #5 [17/12/2015] (SP)

Sofirmento Psiquico versus Falácias ideológicas: Discurso da Adaptação e perpetuação da desigualdade por Rodrigo Gonsalves

Sentado em um café enquanto pesquisava para o meu mestrado, dois homens, um de blazer e calças sociais e o outro, de camisa social e calças sociais, passam a papear sobre alguns problemas que habitualmente chamam minha estúpida e curiosa atenção. O jovem sem blazer dizia algo como: “Ah! O fulano começou a ficar com depressão, estava sem animo e sem propósito em sua vida, dizia que queria ir para a Austrália e lavar pratos buscando uma vida melhor”, que fez, quase como automaticamente saltar os olhos do rapaz de blazer que entoa em monotonicamente suas premissas: “Você viu só! Que desperdício este tipo de coisa, a pessoa está querendo abrir mão de si mesmo e ir para a Austrália! Austrália! E para lavar pratos! Não, completamente enganado!” e seguido assim, das suas máximas doutrinadoras: “É justamente por isso que ele realmente precisa deste Coaching – o fulano está sem metas – é isto que ele precisa, encontrar as suas metas para poder produzir”. É quando o jovem aponta para um outro elemento, até então, velado da conversa: “Mas o fulano disse que estava passando por uma crise existência, que estava sofrendo justamente como as coisas estavam para ele”. O coach oportunista vê nesta fala o convite para o seu pitch de negócios: “Ah! Crise existencial, essas aí são as minhas favoritas para tratar! É só colocar as regras do coaching, estabelecer quais são os são padrões e objetivos, definir quais são as metas para que ele possa sentir-se apto novamente à conseguir produzir, conquistar essas metas. Fácil! Fácil!”

O rapaz mais jovem, não desaprova as enérgicas colocações do homem do blazer entretanto, não às opõe forçosamente, apenas colocar mais informações que, de algum modo, pareciam não fazer caber diante do que ele mesmo estava ouvindo deste “mestre da realidade”. Ele então coloca: “Não sei se ele está conseguindo fazer isto, ele não sabe o que quer… estava pensando em procurar por uma ajuda psicológica…” Mas como sabemos, um ardiloso mestre, não abre mão da fantasia de sua coroa com tamanha facilidade, o artífice de blazer lhe diz: “Psic-quê? Bobagem! Isso é coisa para louco! Ele não está louco – só precisa achar o que fazer da vida. Então o problema dele nada tem a ver com o Coaching, ele está precisando mesmo é de um Mentoring! Ele está buscando alguém que possa lhe passar quais são os seus objetivos de vida e não só as suas conquistas profissionais. Bem, esta é outra função que eu executo muito bem!”. É quando o homem de blazer saca dos seu kit-RH o seu cartão de contatos e com todo o ar impetuoso de quem não questiona em momento algum ter todas as respostas da verdade humana, diz ao jovem: “Peça para ele me ligar, combinamos um preço bastante camarada e assim, seguiremos.” Ambos se levantam, se cumprimentam e partem.

Bem, o homem de blazer ao sair do café conseguiu quase derrubar uma mesa ao não conseguir “caber” dentro do próprio recinto (nem dele mesmo), conquistando assim um strike de algumas xícaras e talvez, se lembrando mesmo que por uma hiância de sua própria incongruência e humanidade… Entretanto, ao invés de me satisfazer com essa pequena demonstração kármica, penso que a situação como um todo tem alguma possibilidade reflexiva extremamente mais prudente e notória. Trago aqui alguns dos pontos dos quais podemos tomar como criticamente fundamentais na situação em questão: 1. O discurso vigente da compreensão do sofrimento psíquico; 2. Adaptação moral x Subjetivação e Singularidade; 3. Reiteração dialética ou tamponamento emergencial da sutura.

Enquanto o ponto número um, é claramente o mais trabalhoso dos três, mas podemos prescrever claramente como a escola frankfurtiana, em especial o texto de Theodor Adorno, Ensaios sobre psicologia social e psicanálise (2015) e outro de sua parceria com Max Horkheimer, a Dialética do Esclarecimento (2006); já possuem grande parte dos ingredientes necessários para alcançarmos o caldo crítico que nos ajudaria a termos um insight vital desta situação em questão. Entretanto, para suplementar tal mistura, se faz necessário também o uso dos ‘anti-oxidantes’ e ‘radicais livres’, do métier lacaniano que encontramos ao longo da obra de Slavoj Zizek.

Bem, agora que definimos a nossa cozinha, vamos ao prato do dia “o discurso vigente da compreensão do sofrimento psíquico”. Corriqueiramente se confunde ideologicamente no cotiano humano atual, dois termos filosoficamente fundamentais: ser e ter. Podemos resgatar a compreensão do fetichismo com que podemos denotar como as coisas passam a adquirir esta força maior do que si mesmas – mas também, como aponta Zizek (2001) em sua leitura de Marx, há uma relação mais complexa que se afirma no consumir humano. Entram aqui os elementos da fantasia, do ideal de eu que se imprime no adquirir e no consumir, melhor diznedo, uma forma de ser que se vislumbra atingir por meio do ter – e tão logo essa equação se apresenta, o que temos é a receita da alienação na modernidade. Onde aqueles de caso sabido, fazem o que fazem, parafraseando a inversão de Zizek à famosa máxima de Marx (op.cit, 2001).

Sendo assim, a maneira de expressão de satisfação está imbuída das máximas mercadológicas e da satisfação mercadológica, são aquelas boas e velhas receitas prescritas pela moral vigente para se viver uma vida em estado semi-vegetativo (ou zumbificado) que tem como objetivo maior responder as seguintes perguntas: “como eu posso obter viver uma vida só tendo prazer?” ou “como eu posso viver a minha vida sem precisar sofrer?” Nada como mais um mestre que possa dizer exatamente o que eu preciso e assim, me alienar um pouco mais. Entretanto, no campo político e ético do desejo, há um risco nefasto desta subserviência voluntária. Se apagam os traços de possibilidade singular em nome da discursividade placada da moral vigente. O que se torna fundamental é apenas atender ao chamado do que é esperado daquele trabalhador, daquele consumidor e se perde o que poderia haver ali de humano ou com valência emancipatória.

Todos os instantes passam a ser coptados pela organização administrada, a lógica do condomínio (DUNKER, 2015) já implica no modo placada do como se deve viver, no como se deve relacionar, no como se deve… São as novas redomas que aprisionam hoje, mas não sem a vontade dos indivíduos em questão – são estes que fazem questão delas. Não se quer ver, não se quer entrar em contato, não se quer se saber absolutamente nada sobre isto, não se quer ouvir nada disto. É justamente a aplicação do “eles lá e nós aqui”, um joguete dialético que tenta materialmente escamoteiar a luta de classes e acaba apenas intensificando a sua própria lógica. Os traços subjetivos disto apenas podem se extremar, tanto para os que estão confortáveis com a invisibilidade, quanto para os que apenas querem poder ser aqueles que um dia poderão também fechar os olhos.

ADORNO, T.W. Ensaios sobre psicologia social e psicanálise. São Paulo. Unesp, 2015.

ADORNO, T.W.; HORKHEIMER, M. Dialética do Esclarecimento. Rio de Janeiro. Editora Zahar, 2006.

DUNKER, C. Mal-Estar, Sofrimento e Sintoma. São Paulo. Boitempo, 2015.

ZIZEK, S. Mapa da Ideologia. 2001.

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