NOTA #6 [03/07/2018] (RJ I)

(12.08.13) Em uma conversa com meu amigo R.P., fui levado a tentar formular com clareza e dizer duas ou três palavrinhas sobre duas das principais críticas feitas ao Fora do Eixo – e isso para tentar tornar as coisas mais claras para mim mesmo, antes de mais nada. A primeira diz respeito ao senso estético e à bagagem cultural dos membros do FdE. A segunda diz respeito à estrutura mesma do FdE, e me parece a crítica mais séria feita a essa proposta de rede de trabalho. Reproduzo o que escrevi a seguir, esperando que isso possa contribuir de alguma maneira para a discussão. Sobre a crítica ao senso estético e à “bagagem cultural” do pessoal do FdE: uma vez que este é limitado (e, a julgar por algumas declarações de integrantes da rede, eles não fariam questão de aumentá-lo), a sua capacidade de influenciar positivamente o mercado da produção cultural ficaria limitada – ou, pior ainda, eles só contribuiriam para manter e/ou incrementar a miséria estética do mercado em geral, mas mascarando isso (intencionalmente ou não) sob um perverso verniz de contestação do sistema. Sobre não teria como me pronunciar, já que não conheço muito o que os caras produziram. Pontuaria apenas que a crítica estética não invalidaria a experiência mesma dos coletivos, da nova estrutura de trabalho/de vida proposta que estaria sendo experimentada no FdE; idealmente, parece que bastaria substituir os agentes do processo e não a estrutura mesma. Isso nos leva à segunda crítica, que me parece a mais séria e a que mais me tem interessado (crítica que, de certa maneira, já se insinuava no parágrafo anterior no trecho “mas mascarando isso (…) sistema”). Em linhas gerais, ela contesta o caráter revolucionário e de esquerda alegado pelo movimento, dizendo que ele é só um verniz para um novo modo de funcionamento do capitalismo – ou, ao menos, que só sobreviveria parasitando o capitalismo. Nesse novo funcionamento (ou nesse funcionamento parasita), a exploração se daria: 1) pelo fato de que os coletivos, sob o verniz da “livre decisão por um modo de vida”, na verdade consistiriam em lugares de exploração do trabalho dos que ali vivem sem a garantia de direitos trabalhistas. Nesse caso, sequer haveria a clássica “venda da força de trabalho”, mas os bois se encaminhariam para o abate como para o paraíso, voluntariamente e sem nenhuma necessidade de coerção ou barganha. 2) pela exploração dos artistas, produtores, etc. que seriam agenciados pelas redes ancoradas nos coletivos, na medida em que estes não receberiam por seu trabalho (o que seria, de novo, uma violação dos direitos trabalhistas), mas sobretudo na medida em que eles seriam explorados 3) para a produção de um “mais valia sócio-cultural”, que resultaria em um “capital social” agenciado pela marca FdE em função da obtenção de patrocínios privados e verbas em editais públicos. O “mais-valia” se configuraria na medida em que, por mais que participar de um evento do FdE pudesse ajudar um artista a ganhar ou constituir um público, como gerente da rede, a marca mesma conseguiria muito mais “retorno” do que aquele que vai para o artista; digamos que o x de público que o artista “produz” reverte-se em mais que x para os “donos” (o gerente) dos “meios de produção” (a rede mesma) – e esse “mais que” não é senão o, ou se converte em capital (cuja produção seria, assim, nem tão capitalismo 2.0. assim…). O “capital” obtido não seria expresso (apenas) em termos de grana , mas (mediatamente, ao menos) em termos da capacidade de mobilização de público “alternativo” da marca FdE e do fato de ela servir, junto às grandes marcas, finalmente como porta-voz anseios de certa camada da juventude cujos anseios, quiçá, só agora seriam de todo (melhor) capturados pelo mercado. Suposto que todas essas críticas se apliquem ao FdE e deixando de lado o quanto de suspeito pode haver nas tentativas de massacrá-lo que apareceram só agora que a rede apareceu na grande mídia, minha questão é: isso invalida o quanto de revolucionário pode haver na ideia e na experiência de trabalho/de vida que coletivos horizontalmente organizados para a produção cultural (e não só)? Parece-me que não; parece-me que isso só mostra o quanto tais alternativas “para-econômicas” podem ser absorvidas pelo sistema socioeconômico dominante e sua ideologia. Tanto que talvez a própria experiência dos coletivos, do chamado “comum”, pode acabar por se deteriorar: reforça isso o fato de que uma das primeiras críticas que li ao FdE, em um texto no site da Universidade Nômade, focava no fato de que o FdE professava, mas na prática (sobretudo nas atitudes no Fórum de Comunicação) deturpava a ideia de uma organização horizontal, baseada no comum, verdadeiramente coletiva – e o fazia por ter cada vez mais uma estrutura centralizada, hegemonizante, baseada em certas lideranças e que forçava o consenso. Mas, a julgar por alguns depoimentos de quem vive ou viveu a coisa no dia a dia , “na base” a coisa (por vezes) funcione minimamente

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