NOTA #6 [08/08/2017] (RJ I)

Freud toma exemplos de repetição, que parecem inicialmente nada ter em comum em Além do princípio do prazer: os pesadelos das neuroses de guerra, os jogos das crianças, o prazer dos adultos em ir ao teatro, as neuroses de destino, a própria transferência, que, de instrumento de uma mudança pulsional, passa a ser regularmente o entrave a uma transformação. O que reúne esses exemplos é a revisão que eles impõem ao tema freudiano, segundo o qual toda a vida anímica tem por objetivo um ganho de prazer. O “princípio do prazer” é uma noção que ganha sentido nos modelos do funcionamento do aparelho psíquico. O texto do Entwurf einer wissenschaftlichen Psychologie,2 como se sabe, desde os anos 1950, permanecera inédito entre os papéis de Wilhelm Fliess. Mas ele assombra toda a obra de Freud. Desde o início, desde 1895, o princípio do prazer tem uma ambiguidade dupla, que o modelo do aparelho psíquico permite explicitar: a estrutura desse aparelho possibilita armazenar energias ou representações, o que constitui um desprazer devido ao aumento das cargas nos circuitos, mas a repartição das energias nos circuitos múltiplos serve, ao mesmo tempo, para diminuir as cargas investidas em cada parte do aparelho. Primeira ambiguidade, portanto. A segunda ambiguidade concerne à relação paradoxal entre a estrutura e o funcionamento desse aparelho: nesse modelo, o prazer é definido como a sensação de uma descarga, ou seja, um esvaziamento de circuitos investidos de quantidades. O horizonte ideal do aparelho seria que o sistema se esvaziasse completamente, o que seria um prazer máximo, mas essa experiência de excesso seria ao mesmo tempo a extinção do próprio sistema.

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