NOTA #6 [16/05/2017] (RJ I)

Partindo da suposição de Freud, ao fim do ensaio A nossa atitude diante da morte, de que talvez fosse “melhor atribuir à morte, na realidade e nos nossos pensamentos, o lugar que lhe compete”, propondo-nos a deixar vir um pouco mais à superfície nossa atitude inconsciente diante dela, a fim de suportarmos melhor a vida, penso que poderíamos obter daí uma lição válida também para pensar nosso atual momento político. Considerando que este ensaio de Freud foi escrito em uma época de grande desilusão, pois confrontada com os horrores da guerra, seria talvez possível traçar um paralelo com nossa situação política de hoje, ela própria também portadora de grandes decepções. Se não pudermos evitar os efeitos da catástrofe neoliberal que se avizinham (se é que se revelarão, ao fim e ao cabo, de fato uma catástrofe), da mesma forma que não podemos evitar a morte, será possível conceber uma forma de vida satisfatória no interior da catástrofe? Possível permanecer vivendo (e não apenas sobrevivendo) em uma realidade que nos confronta(rá) com um presente materialmente pior do que o passado e um futuro que parece desautorizar prognósticos mais otimistas? Possível viver na morte de nossos sonhos?

Não pretendendo advogar o fatalismo, principalmente no campo político, e ainda assim tomando como certa a tragédia, me pergunto se não seria o momento propício para pensarmos mais honestamente a (possibilidade da) morte de nossas fantasias acerca de um porvir mais promissor. Não sugerindo que estas mortes já tenham acontecido, pois claramente estão vivas muitas fantasias – como provou o último escândalo político, em que o futuro pareceu novamente se abrir, e quando tratamos de rapidamente invocar alguns fantasmas do passado (Lula, diretas, golpe (dentro do golpe)) para afugentar a cruz do presente –, apenas constatando que podem vir a ocorrer. E caso ocorram (repetindo, o que proponho é tratar essa fatalidade como já dada), será possível pensar uma forma de vida mais precária – politicamente inclusive – e desprovida de grandes ilusões? Uma em que, na política, não alimente o saudosismo nem (então) fantasias revolucionárias, mas uma em que cada ação política local, longe de poder aspirar ser parte de uma mudança estrutural maior, seja constrangida pela circunstância a praticamente satisfazer-se em si mesma?

Acompanhando os textos que os integrantes do CEII têm compartilhado e produzido, e os últimos acontecimentos, fica mais forte essa impressão de que teremos de aprender a existir no limite. Importando a recomendação de Freud acerca da morte para esta nossa circunstância, parece que o melhor seria refletirmos sobre este limite de maneira mais verdadeira, para melhor suportá-lo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *