NOTA #6 [25/04/2017] (RJ I)

Por uma socialização do tédio e da preguiça ou a nossa tragédia do século XXI em escala chinesa

 

Camarada 073 no texto intitulado “Três dimensões da tragédia da esquerda no século XXI” apresenta seu panorama da esquerda atual a partir daquilo que ele chamou de “três grandes correntes”:  “i) uma esquerda institucional-parlamentar ou “estadocêntrica”; ii) a esquerda dita tradicional-radical ou “saudosa”; e, por fim, iii) a esquerda fragmentária ou dita “pós-moderna” (por mais complicada e problemática que seja a utilização deste termo atualmente, convém faze-lo a bem da simplificação do debate).” Concordo com o diagnóstico feito pelo Camarada, embora também acrescentaria outro texto feito pelo Camarada 031 que vai na mesma, mas acrescentando a interdependência entre esses grupos. No entanto, em troca de mensagens no facebook, vi que o companheiro se sente entediado e preguiçoso com esse debate. Achei curioso, porque o texto me deu sentimento completamente contrário, dando mais vontade ainda de militar pela esquerda partidariamente. Para tentar entender esse meu sentimento contrário ao do Camarada, tentei esboçar a seguir alguns comentários.

 

(Antes, um pequeno parêntese. Uma crítica que faço aos dois camaradas é que não é possível identificar nos respectivos textos de quais grupos eles falam. Se eles falam desde o campo da esquerda, então falam de algum desses grupos. Ou será que existe alguma zona neutra do qual pudéssemos criticas a esquerda sem se “contaminar” com suas contradições? E mais: se reconhecer em um desses grupos não é justamente o passo fundamental de questionarmos o próprio arranjo deles, na medida que somos apenas mais um que padecemos deste gozo sintomal? Fora disso, me parece apelar para a “bela alma da esquerda” que não se confunde com as suas contradições. Eu sou do grupo 1, embora respeite o 2 e um pouco menos o 3. E vocês? De qual grupo são?)

 

O Camarada 073 fez o diagnóstico da situação concreta da esquerda em três grupos. Camarada 031 flagrou a interdependência entre esses três grupos. No entanto, para a análise ficar ainda mais concreta, precisamos incluir nessa análise o(s) grupo(s) que não fazem parte desses grupos de esquerda, mas que os influenciam. Esses grupos têm duas imagens para os grupos de esquerda: a imagem do horror e a imagem do paraíso. Quando esses grupos estão sob a imagem do horror, chamarei eles de “pessoas normais”. Quando estiverem sob a imagem do paraíso, chamarei de “povo”. A diferença entre as “pessoas normais” e o “povo” é que os primeiros se encaixam na expectativa de grupo social que os grupos da esquerda esperam dos que sejam diferentes deles, e os segundos, nem sempre.

 

Acho essa diferença oportuna porque ela traz para o primeiro plano o objeto de desejo que faz coesão aos três grupos de esquerda. Ela é o nó da causa da interdependência. O problema é que, como todo objeto desejo, esses grupos nem sempre se encaixam nas expectativas que criamos deles, por isso eles para a esquerda oscilam entre o horror e o paraíso. E acho que dessa oscilação podemos tirar algum proveito. E como podemos tirar proveito? Expondo a esquerda ao horror. Se o paraíso é o reino das demandas atendidas, consolidando identidades estabelecidas e interindependência, o horror é o que escapa a esses três grupos, obrigado-os a ao menos reconfigurar suas narrativas identificatórias, mas alguma coisa, mesmo que seja a memória do horror (ex., caso Daciolo[1]), fica nas organizações.

 

Darei um pequeno relato de experiência que acho que pode ajudar um pouco a esclarecer essa minha proposta. Em um dos municípios do interior que milito, ocorreu uma situação recorrente na esquerda: uma liderança que trabalhou na construção do partido há anos acabou excedendo de suas funções e começou a conduzir o partido de forma um pouco autoritária, em seguida, um grupo do partido se incomoda com a situação e manobra para derrubar a liderança. A referida liderança seria um pouco mais do grupo 1 e o grupo insurgente um pouco mais do grupo 3. Mas essa identificação é muito provisória. Após a derrubada do antigo líder, achei que seguiria um pouco o cenário já conhecido: o líder expõe o “golpe” do grupo anterior, aponta algumas contradições, e sai do partido, ou cai no ostracismo, rompendo totalmente com o grupo insurgente.

 

Pois é. Aí, para minha surpresa, este cenário “pós-golpe” não aconteceu. Depois de alguns dias de mágoas, o líder resolver voltar ao partido (sem seu posto de liderança) e o mesmo foi bem acolhido pelo grupo insurgente, sem nenhum ressentimento! Inclusive com algum reconhecimento histórico para o partido. Credito essa postura diferente a própria configuração da militância do partido no município: militantes que pouca ou quase nula experiência em política partidária – quase “pessoas normais” – e que encontraram no partido um possibilidade de fazer política. Acho que essa “falta de história” ajuda na desdramatização de conflitos. O que é bem diferente em grupos mais antigos da esquerda, em que todas as tensões aparecem um memória gigantesca de organização que chega a causar paralisia.

 

Outro ponto interessante tem a ver com a postura do líder deposto. De imediato, ele teve a postura que qualquer líder tem: ia sair do partido xingando tudo que podia e prometia aproveitar as “outras oportunidades” da política do município, como por exemplo se alinhar aos partidos da ordem. Mas isso não durou e em poucos dias ele voltou resignado ao partido. Surpreso com sua decisão, fui perguntá-lo o porquê da mudança, e me surpreendi com a resposta: ele disse que não ia largar o trabalho que ele tinha feito a anos, que não ia jogar fora anos de investimento pessoal. Em um primeiro momento, fiquei desconfortável com a resposta, pois ela apontava para um personalismo que justamente o fez perder seu posto de liderança. Contudo, matutando com um pouco mais de calma, achei legítimo a justificativa. De fato, trata-se de um investimento pessoal de anos, com muita dedicação voluntária ao partido, e cada um de nós, mesmo que secretamente, espera que seja recompensado de alguma maneira, mesmo que em forma de reconhecimento coletivo. Um sentimento absolutamente humano e que atravessa todos nós. O problema é que a esquerda tradicional vê com maus olhos esse “desejo pessoal” na política, porque, em princípio, não estamos no partido para realizar desejos individuais, mas o desejo de todos. Realizar um desejo individual seria pequeno burgues. No entanto, os rompimentos são individuais (mesmo que em nome de todos…). Aí como os rompimentos ficam com essa sombra moralista de “Luta pela humanidade” o ressentimento fica muito maior. Curioso é que no final das contas o rompimento fica ainda mais pessoal. No nosso caso, quando o líder naif de esquerda resolve voltar para não perder seu “investimento pessoal” no fundo desinflaciona o ressentimento do rompimento, permitindo sua volta.

 

Poderia dar outros exemplos de casos semelhantes que vivi nos últimos anos. Contudo, o que acho importante pra gente aqui é o fato de como pessoas normais que entram no partido criam saídas diferentes para impasses já conhecidos. E que temos muito a aprender com essas novas saídas. Por isso, não fiquei com tédio, mas com entusiasmo com os textos dos Camaradas! Pois há a meu ver um encaminhamento militante para esse impasse da esquerda: socializar ao máximo esse impasse! Fazer com que pessoas normais se interessem minimamente pelo nosso tédio e queira compartilha-lo conosco. O problema verdadeiramente materialista é que a tragédia da esquerda é só da esqyerda classe média. Essa tragédia precisa ser reconhecida por mais pessoas! Uma tragédia em escala chinesa! Talvez quando menos percebermos os nossos próprios impasses mudarão e, sem querer querendo, conseguiremos aquilo que sempre buscamos: a aliança com o povo, ops…, com as pessoas normais! rsrsrs

 

[1] A expulsão do Daciolo talvez seja o caso mais emblemático dos efeitos do horror que as “pessoas normais” geram ao partido. Na reunião que resultou em sua expulsão, a votação foi quase unânime (somente uma integrante da executiva nacional foi contra). A urgência de lidar com a dilacerante situação de angústia diante da falta de aparatos identificatórios com o Daciolo fez com que os três diferentes grupos de esquerda se unissem contra o mal estar que estava sendo gerado. Talvez seja nestes momentos agudos que o horror e o paraíso se encontram: aqueles que mais desejamos se apresentam de forma mais plena. Só que a gente, geralmente, não aguenta. Aliás, ao que parece, o próprio Daciolo não resistiu. Parece que para suportar a distensão em relação ao partido ele mesmo teve que perder seu “estatuto de normalidade”.

 

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