NOTA #6 [29/08/2017] (RJ I)

541. Verdade e ideia. Volta e meia coloquei para o ceii a questão do sentido da noção de verdade (ou, antes, “Verdade”), sobretudo em Badiou. Talvez o surgimento da questão de uma certa dialética entre fato e ficção nas últimas reuniões possa ser uma boa ocasião para retomar a questão. Não posso desenvolver a coisa agora, mas creio ser importante, nesse contexto, relacionar aquela noção à idéia lacaniana de que a verdade tem a forma (aparece sob a forma?) de ficção — e isso, se possível, sem perder de vista as concepções, se não mais tradicionais, mais comuns de verdade: i) verdade como correção/ adequação/ correspondência; ii) verdade como desvelamento; iii) verdade como coerência. Em todas essas distinções, há uma peculiar relação entre saber e real/realidade. Assim, na verdade como correspondência temos a ideia de que é verdadeiro o que corresponde e/ou se adequa ao real. Isso que corresponde é o juízo, e um conjunto de juízos verdadeiros constitui um saber. A verdade como coerência interna de uma teoria ou bem deixa o real de fora (o que importa é essa coerência mesma, e nada mais), ou bem toma a coerência como o significado msm de realidade, ou bem como critério de correspondência a esta. Na noção de verdade como desvelamento temos a separação da verdade em relação ao saber e a tese de uma precedência daquela sobre este: o conhecimento é um modo de desvelamento ou, quando muito, um modo (em geral derivado, não originário) deste. Em Hegel, já temos algo do gênero, mas (segundo a compreensão comum, ao menos) em vista de uma coincidência entre saber e verdade: (uma figura d)o saber falha ali onde encontra sua verdade — mas (segundo a compreensão comum) no absoluto não mais falharia… Ou? Sob esse aspecto, o da verdade como furo do saber, Badiou — e a psicanálise — parecem se mostrar hegelianos. Tendo isso em mentw, podemos acrescentar alguns dados ao problema. Primeiro, que a verdade em Badiou parece ser o mais comum de uma situação — o que faz lembrar a ideia (presente em Kant, por exemplo) de que a universalidade, se não coincide com e/ou é critério para a verdade (isto é, a objetividade) de um juízo, ao menos é o indício, a marca dessa verdade. Segundo, que se a situação é a “realidade” (cotidiana) e a representação dessa situação (o seu estado) é o saber dela, então saber e realidade estão do mesmo lado. Ora, se é a fantasia que estrutura a realidade, então o saber estaria do lado da fantasia. Do lado “oposto” a realidade, saber e ficção (fantasia) estariam então a verdade e o Real. Mas como esses lados se articulam aí? Como, em particular, se pode distinguir e articular realidade e Real? A “mediação” entre um e outro é feita em Badiou (e em Hegel) pela ideia, que projeta na situação algo da ordem do Real. A ideia é, então, duplamente ficcional: i) é ficcional porque, do ponto de vista de quem está engajado em um processo de verdade, ela torna palpável por uma narrativa a potência de um processo político; ii) é ficcional porque, do ponto de vista da situação, ela tende a se mostrar como quimera, como impossível. Desde Platão parece se articular algo do gênero: é no impossível exagero da hipótese das ideias que a realidade mostra o que tem de Real, de mais comum e, pois, de mais verdadeiro — pondo-se, assim, no limite do saber.

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