Nota #7 [01/04/2014] (RJ I)

79. Do Conceito de Verdade (1). Verdade como adequação. Até onde posso ver, uma das questões que é preciso colocar explicitamente quando se trata de pensar a noção de Verdade em Badiou e que ainda não enfrentamos é a da relação entre esta noção e os demais conceitos de verdade. Em especial, creio que interessaria pensar a relação com dois outros conceitos de verdade: a verdade como correspondência/adequação e a verdade como desvelamento.

 

A necessidade de pensar a relação entre a noção de Verdade e a concepção tradicional de verdade como correspondência ou adequação está enraizada em pelo menos duas razões: 1) o fato mesmo de que tratar-se-ia da concepção predominante na tradição da filosofia; 2) o fato de que, seja por isso, seja por outro motivo, ela parece ser a concepção operante no uso comum da palavra “verdade”.

 

Com efeito, a concepção em causa reza que verdade é a correspondência ou adequação entre juízo e realidade ou, mais precisamente, do juízo com a realidade. Seja como for entendida a noção de “realidade”, esta funciona aí como critério de verificação do que é declarado em um juízo (ou proposição, ou enunciado).

 

Comumente, “realidade” é compreendida como o “fato”, “o que é o caso”. No senso comum, não raro são os cinco sentidos que, de um jeito ou de outro, determinam (em última instância) o que é o caso: “fulana traiu ciclano” porque beltrano viu a viu saindo com outro do motel ou ouviu uma conversa dos dois ao telefone. O parêntese “(em última instância)” vem ao caso na medida em que as aparentes verificações empíricas são muitas vezes, se não sempre, carregadas de interpretações e/ou pressuposições implícitas. Os exemplos escolhidos dão um testemunho algo caricatural desse procedimento: supõe-se que sair junto de um motel significa ter tido relações sexuais com aquele que x acompanha nessa saída, que basta ter relações com umx terceirx sem que x parceirx “oficial” o saiba para que se configure uma traição, etc.

 

Seja como for, mesmo a aparente neutralidade (ou naturalidade) dos cinco sentidos, chamados a testemunho confiável da verificação de não poucos enunciados, é em verdade constituída em um certo horizonte de mundo, isto é, um certo horizonte de significados e compreensões compartilhadas que estão presentes na mais “ingênua” e “despojada” visão – nunca se vê um conjunto de cores e formas, mas, por ex., uma rua, alguns carros, pessoas ou, antes, a rua Riachuelo, que é uma rua familiar, etc. Se é assim no que diz respeito ao campo ao qual não poucos anglo-saxões confiam suas “intuições naturais” ou seus “argumentos intuitivos”, que dirá quando a realidade é determinada como o que é comprovado segundo certos procedimentos científicos, por ex.?

 

Assim, não importaria o que se consideraria a realidade, o fato é que: (1) ela se determina a partir de um certo horizonte de sentidos, que determina o limite do possível e constitui o que se pode chamar de mundo, ou situação, ou ainda mais badiouanamente, estado; (2) a adequação do juízo é a adequação ao que se dá no interior dessa situação. A verdade é, pois, intrasituacional; mais, ainda: a determinação da verdade de um juízo é inteiramente submetida às regras dadas de uma situação. Nesse sentido, mesmo uma reorganização da situação só importaria para a verdade na medida em que esta se submete às regras daquela.

 

Outro aspecto do mesmo é o fato de que, se o conhecimento é constituído de juízos e a verdade é uma propriedade desses, a verdade é uma propriedade do conhecimento. (A noção de verdade no senso comum parece se reduzir a isso: (a) uma pessoa falsa é aquela cuja fala não corresponde ao que ela faz; (b) um pedaço de matéria é “ouro falso” porque os juízos que sobre ele se fazem não correspondem àqueles que se faz verdadeiramente sobre um outro pedaço de matéria, tido como “ouro verdadeiro”; aqui é este o critério último, na medida em que certos juízos são verdadeiro sobre ele.)

 

Vejamos agora o conceito de Verdade em Badiou em sua relação com os aspectos que emergem da noção de verdade como correspondência:

 

(1) a verdade não é uma propriedade de um juízo (ou mesmo da declaração fiel), mas o resultado de ou o processo de fidelidade a um evento;

 

(2) a declaração de um evento não “mede” sua “verdade” pela correspondência a este, mas constrói/cria uma verdade na fidelidade à declaração;

 

(3) nisso, a verdade não é um dado, mas processo e construção/criação;

 

(4) se processo, criação, construção podem ser medidos, é em função das consequências que elas retiram da declaração do evento ou, antes, da fidelidade a essa declaração (e, nesta, a fidelidade ao evento);

 

(5) essas consequências, mesmo sendo fruto de um trabalho dito “investigativo”, não são, por sua vez, medidas como verdadeiras por corresponderem ao evento, pois:

 

(5.1.) um evento não é um dado/fato na (realidade da) situação, mas algo que rompe imanentemente a lógica desta, dando testemunho do vazio em torno do qual ela sempre já “gira”, do ponto de vista do ser (sob este aspecto, a situação parece com uma pulsão que não sabe de si (embora disponha o saber sobre tudo o mais)) e;

 

(6) a verdade não é da ordem do conhecimento, do saber, mas é justamente o que faz furo no saber ou, antes, o que surge ali onde o saber constituído é furado. Verdade é não saber.

 

Obviamente, é possível elencar outras tantas contraposições entre a verdade como a concebe Badiou e a concepção corrente e tradicional. Mas já estas nos permitem perguntar: dada a radical diferença entre as duas concepções de verdade, é possível dizer que elas estejam disputando um mesmo campo – ou é preciso reconhecer que se trata de uma mera equivocidade?

 

Ora, arriscaria dizer que Badiou quer manter algum diálogo com a tradição filosófica e que pretende estar falando da mesma “coisa” que a tradição, ou alguma tradição (a platônica, ao menos) chamaria de verdade – seria de fato muito pouco interessante que fosse diferente. A minha hipótese é então a de que o que está em jogo na concepção de verdade é relacionada com sua matriz platônica, e isso em (pelo menos) três sentidos: (i) como processo que surge a partir de uma ocasião de “desvelamento” do vazio constitutivo da (mas sempre soterrado pela) situação, ocasião que não é senão um evento e “desvelamento” que não se consuma senão no processo mesmo de verdade; (ii) como o eterno em oposição à contingência das opiniões; (iii) como a orientação de uma vida.

 

Sobretudo no último sentido ((iii)), emerge algo que não é estranho ao senso comum: o viver por uma verdade. Mas, ainda assim, fica a pergunta: qual é a relação entre o conceito tradicional/comum de verdade e o conceito proposto por Badiou? Este simplesmente “quer” cancelar aquele? Em Heidegger, por ex., haveria uma relação entre fundamento (desvelamento) e fundado (correspondência). Não seria de se esperar que, se a pretensão de Badiou é filosófica, ele precise dar uma explicação ao que comumente se chama de “verdade”?

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