NOTA #7 [01/08/2017] (RJ I)

023 – Resposta do Fevereiro sobre ele ter dito “não somos contra o agronegócio”:

 

“Mentira, eu não disse isso. Eu disse que o agronegócio é uma cadeia produtiva com 6 milhões de empregos. Não dá para simplesmente acabar com isso sem colocar outra coisa no lugar. Eu falei inclusive sobre a criação de frangos, o absurdo que é o confinamento das matrizes em micro espaços, engordados com ração com antibióticos e hormônios, luzes acessas 24h para acelerar o crescimento; mas que por outro lado isso faz com que o trabalhador urbano compre frango a R$3 no quilo. Que a superação desse modelo precisa ser feita levando isso em conta.

 

O curioso que ninguém me contestou, só uma assessora do Markito (vereador) pediu mais informações”.

 

E eu concordo com ele.

 

313 – cho que faz sentido e cabe um debate maior. O pessoal que criticou ele disse que não respondeu porque entendeu que ele tava tão distante do debate de segurança alimentar que a tensão seria grande e não caberia naquele espaço. Mas com certeza cabe expor as divergências. Vamos fazer debates sobre segurança alimentar e vou propor chamarmos ele.

 

O pessoal discorda que esse esse “botar alguma coisa no lugar” já não seja um acúmulo suficiente dos movimentos agrários. A indignação é menos por chamar a responsabilidade para ter um projeto do que pela desmobilização que chamados à responsabilidade produzem. Apesar de entender que a elaboração dele é válida também acho válida a indignação do pessoal e ainda compartilho a indignação. Eu to mais com o Satatle, primeiro a gente sai da casa que ta pegando fogo, depois a gente faz uma casa nova. Isso não quer dizer não pensar no problema material das cadeias produtivas, mas sim de apontar que é urgência absoluta sairmos dessa lógica, mesmo que (e quem sabe exatamente porque) a gente não saiba pra onde.

 

023 – “A indignação é menos por chamar a responsabilidade para ter um projeto do que pela desmobilização que chamados à responsabilidade produzem.” Cara, acho isso uma questão importante por CEII. Em princípio, tenho dificuldade de entender. Pois qual seria o ponto que o chamado à responsabilidade seria mobilizador ou desmobilizar? Essa questão da subjetivação militante é essencial hoje.

 

No mais, discordo dessa coisa do Safatle de abandonar de imediato a lógica do capital. SImplesmente porque esse é o nosso modo de vida e não se altera o modo de vida por decisão da vontade, mas pela construção de formas novas. Acho que o Safatle muitas vezes beira ao voluntarismo. Isso é um movimento meio recente dele. Lembro de textos dele de uns cinco e seis anos atrás em que ele defendia claramente, por exemplo, a necessidade de se pensar um governo de esquerda, formas de transição etc. O problema da ruptura são suas consêquencia. É aquilo né? Isso é dito da boca pra fora ou a gente sabe que isso vai curtir a nossa pele? A nossa não,né? Porque isso bate primeiro nos mais pobres. E estamos falando de desemprego, fome etc. Por isso que não é fácil superar o lulismo. Se bastasse nossa vontade o PT já teria sido enterrado. Mas me parece que tem mais coisa aí.

 

151 – Eu penso mais como vc 023, e acho que aquele texto da “População Excedente, Crise da Reprodução e Formação das classes” pinta bem esse problema. Não dá pra simplesmente pular fora de um sistema de produção pq dentro mesmo desse modo de produção existem as inconsistências, os improvisos e formas de sobrevivência e reprodução social dos “excluídos” que apontam para algo diferente e para os problemas materiais do devir político da classe.

 

313 –  Eu até acompanho essa formulação do Zizek de que a gente não deve ter medo de parecer social-democrata. Mas acho que defender que temos que ter algo pra por no lugar antes de destruir o que temos, isso pra poder fazer uma transição entre um modo de vida e outro modo de vida, é escolher ou o ovo ou a galinha. Esperar que a gente tenha um plano de cadeia produtiva do comunismo pra só então ter coragem de propor a destruição do modo de produção atual me parece mais uma tentativa de postergar a tomada do poder.

Tenho pra mim que a via da transformação radical depende da superação dessa estrutura obsessiva, que vai ajeitando tudo pra fazer perfeito e assim nunca faz porque o ideal de perfeição justamente não é exequível por definição. A superação vai ser suja, sem um plano suficiente pra dar conta de todas as necessidades básicas do povo. Isso não é um elitismo ou défciti. As pessoas já passam já passam fome. As pessoas já estão desempregadas. A pele deles é a nossa pele. Por mais que a gente esteja menos vulnerável que alguns dos nossos irmãos, ainda assim, a dor deles é nossa dor e não pode esperar. A responsabilidade foi o cerne do lulismo e tudo o que a covardia dele ainda representa. Com a deterioração cada vez mais acelerada do país (digo isso em primeira pessoa: tava desempregado, passei em primeiro no mestrado e não vou ver nem cheiro de bolsa) eu acho que não falta mais nada pra a gente afirmar que o discurso da responsabilidade é mais pura e contemporânea ideologia. A gente não afirma a radicalidade do vazio institucional inerente à Ideia Comunista porque acredita que o outro acredita que é preciso uma transição “responsável”.

O início da construção da mudança radical precisa necessariamente passar pelo abandono desamparado pra que se precipite (bem no sentido do que o Freud chama de “precipitado de catexias abandonadas”) o traçado do modo de produção comunista.

 

023 – “A pele deles é a nossa pele. Por mais que a gente esteja menos vulnerável que alguns dos nossos irmãos, ainda assim, a dor deles é nossa dor e não pode esperar.” Cara, não mesmo. Nós temos uma rede social e simbólica que ampara. A gente passa muitas dificuldades que nos causa dor, mas há um abismo em relação aos grupos sociais em plena vulnerabilidade e exclusão. Reconhecer essa diferença é inclusive essencial para se estabelecer qualquer tipo de trabalho coletivo com alguém que vem da classe trabalhadora mais pobre. Mesmo meio sem querer, cairíamos numa impostura.

 

Concordo que o lulismo é canalha quando evoca a ação política realista em defesa do pragmatismo continuísta. Mas o problema é que parte desse realismo é real. Repito: por isso que não é fácil superar o lulismo.

 

Eu tb concordo que há uma armadilha nessa obsessão em querer “colocar alguma coisa no lugar”. Mas acho que há um meio do caminho aí entre um imobilismo do obsessivo e a pseudoradicalidade incosequente. Na clínica acontece algo parecido, não? É necessário que sujeito construa novas narrativas para lidar com a perda de gozo que a lida com o sintoma exige. É verdade que não podemos prever as consequência dessa lida, mas o cuidado (material, inclusive) com o sujeito me parece um ponto fundamental para isso ser bem sucedido.

 

Na política, acho que a prova dos nove hoje é o trabalho de base. Nela teremos alguma confiança de que ao menos enquanto erramos estamos juntos. Ela vai dar a medida do meio do caminho. Não adianta propor programas radicais ou reformistas se aqueles que estão dispostos a empunhá-los sequer os conhecem. Por isso, em certo sentido, no fundo eu, você, Safatle e Fevereiro ainda estamos errados (rs), pois pra mim quem está certo é o nosso Grande Secretário que disse: “O certo é estar no Partido. Não havendo efetividade nele, no mundo também não há.” Se isso não for verdade para aqueles que são objetos de nosso discurso, não estaremos fazendo político com…, mas para… pessoas distante de nós. O erro a meu ver está aí.

 

313 – Pois é… ai a gente concorda. A questão é trabalho de base. Não que eu ache que o partido não deva ser aquele que justamente força a base a ir além do que está disposta no momento. Não acho que se trata da base coadunar com qualquer projeto. Acho que o trabalho de base, como um vez colocou o Daniel Alves, é “o partido inventar seu povo”. Minha interpretação disso é que a gente vai mais construindo a “necessidade de comunismo” do que construindo um projeto que a base banque.

 

Sobre a analogia com análise e ação partidária, acho que o analista, mesmo não se fixando no discurso do analista e fazendo circular os discursos, jamais é aquele que vai inventar maneiras de lidar com os efeitos da análise. Quem vai fazer isso é quem trabalha, o analisante. O que o analista ajuda a construir é justamente o sintoma, a fantasia. Atravessar essas coisas, como lidar com o resto do trabalho analítico é trabalho exclusivo do analisando. Se a gente for fazer isso a gente cai nas terapias do Ego e mesmo na Análise e SÍNTESE Experimental do Comportamento (ASEC).

 

Mas agora em termos estritos intra-partidários do PSOL, acho que a US aqui em Florianópolis é totalmente contra o trabalho de base. O partido existe na cidade desde a fundação, aglutina uma série de forças, mas não tem absolutamente nenhuma perspectiva de fazer isso. Somos nós, um coletivo de militantes de correntes do Bloco de Esquerda e outros independentes (Eu entre os independentes), que estamos dando vida partidária ao PSOL. Toda vez que nós tentamos participar dos espaços somos prontamente tratados como criançada pirracenta e esquerdista. O resultado é que os espaços do partido cada vez mais foram se rareando (ao ponto de nunca ter existido um Núcleo de Base na cidade). Então quando cola mais uma pessoa da US aqui, chamando à responsabilidade é esperado que a galera nem se dê ao trabalho de debater. Eu ainda sou uma pessoa nova nessa dinâmica e tento puxar o Amanhecer (esse coletivo do qual eu faço parte) pra debater com a US, mas a galera tem uma indisposição que é um tanto de puro esquerdismo e um tanto de decisão racional pra não ser tratado como quem só quer atrapalhar.

 

Acho que ou a gente, pessoas do CEII no PSOL, começa a debater uma forma de propor uma outra dinâmica interna do partido ou a gente vai acabar sendo mero espírito crítico dos polos do quais a gente faz parte. To bem convicto que a gente precisa fazer um “retorno ao estatuto”, ao projeto inicial do partido, pra conseguir manejar o dissenso de uma maneira diferente da repetição catastrófica de belicosidade e fratricídio que promete ser mais esse congresso nacional do PSOL.

 

083 – A discussão foi da destruição do capitalismo pra o problemas do partido em Florianópolis, geralmente é o contrario porque a magnitude da sofrimento geralmente serve pra acabar com discussão. Comentário desnecessário mas serio fiquei feliz aqui!

 

083 – Mas outra, nessa mesma corrente de tentar pensar menor. Eu tenho percebido como a paciência na formação do CEII é necessária, e eu acredito (pelo que eu vi do trabalho do 023 na US) que trabalho de base precisa disso também. Toda vez que entra alguém no CEII ou a gente tenta fazer algum projeto os problemas são sempre os mesmo! Nós ficarmos um pouco melhores em lidar com os problemas mas o tempo e trabalho pra resolver não mudam muito. Tem uma certa repetição ae, ou um “trabalho constante” que não desaparece, não importa o que a gente faça. Imagino que esse trabalho e o mesmo que o 023 ta falando. Não sei se é útil pra discussão mas ta ae.

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