Nota #7 [05/11/2013]

Dos limites do cooperativismo

Desde as manifestações de junho, algumas pessoas têm levantado a bandeira do cooperativismo, autonomismo, associativismo e congêneres como possibilidade de saída do capitalismo. Bom, pode ser. Contudo, o aprofundamento do debate é indispensável (caso se esteja realmente interessado que o que se diz e se faz tenha consequências). No cap. XI do livro d’O Capital, por exemplo, Marx identifica no trabalho cooperativado uma forma de produção pré divisão social do trabalho capitalista. Então, o trabalho cooperativado, em princípio, longe de ser um antagonista, é parte formal do modo de produção capitalista (aliás isso já está desde Smith). Disso decorre que deveríamos entrar no problema da distribuição dos meios de produção, problema clássico do comunismo. Mas aí temos muitos outros problemas, principalmente se atualizarmos o debate: o que são meios de produção hoje? Qual o estatuto da propriedade privada? E dos donos de meios de produção? É provável que aí se caia em algo como o problema do capital portador de juros que caracteriza o capitalismo atualmente, ou o problema do trabalho imaterial, dentre outros temas complicados e imprescindíveis.

Digo isso tudo não pra jogar balde de água fria, mas para colocarmos o debate em termos mais responsáveis. Gente defendendo expansão maciça da cooperativização, sem levar em conta a inevitável desacelaração da produção, podendo levar imediatamente à miséria parcela significativa da classe trabalhadora. Ou então algo bem tosco, como o retorno hippie de ir pro meio do mato, buscar algum tipo de autonomismo, meio estilo “A Vila”, como se estivesse assim se contrapondo ao capitalismo. Algumas críticas feitas ao governo PT bem pueris, como se existisse uma varinha de condão pra resolver tudo. Enfim…

Longe de ser reformista. Se estamos buscando um processo revolucionário real, que não seja da boca pra fora, então devemos ter clareza das consequências de nossos atos e das imensas restrições que podemos passar. Senão, fica aquela coisa juvenil de “primeiro período” que não adianta muito. Há enorme diferença entre ser oposição e alternativa. Que seja alternativa radical, revolucionária. Que seja. Mas que seja consequente e não um palavrório. Isso pode ser bom (eu odeio…) para papo de mesa de bar, mas não para um movimento real.

Há um conjunto de textos clássicos sobre cooperativismo, Marx a Lenin [1]. Alguns são datados. Remontam a um tempo em que o processo industrial nem chegava perto do que é hoje (o fordismo ainda nem existia direito). Além da imensa aposta no socialismo soviético, no NEP e na sua economia planificada. De todo modo, acho que é um conteúdo básico para o debate sobre cooperativa e revelam o quanto o buraco é bem mais embaixo.

“As relações que se estabelecem no âmbito da cooperação não constituem uma categoria particular dentro cio sistema capitalista de produção e de troca. A cooperação de produção constitui pequenas ilhas de propriedade, não social, mas colectiva, dos instrumentos de produção, ilhas que estão sujeitas na esfera da produção às leis fundamentals da economia capitalista e que apenas nessa medida existem no oceano das relações capitalistas. Onde a cooperação de produção se não pode adaptar às leis do valor, morre. O mesmo se deve dizer da cooperação de consumo cuja extensão e importância sao multo maiores. ‘Essa forma de cooperação, quer baseada nos princípios de Rochdale ou em quaisquer outros princípios, submete-se exactamente do mesmo modo a todas as leis das trocas capitalistas e apenas se pode apoderar, paralelamente a uma certa racionalização da distribuição, duma parte limitada do lucro comercial em benefício dos seus membros.

(…)

Uma vez que a cooperação podia também existir dentro do sistema capitalista, sem ameaçar em nada a sua existência, é absolutamente claro que a cooperação não contém em si própria nenhum principio activo que transforme as relações de produção no sentido da socialização. Os utopistas da cooperação defendem o contrário, mas foram batidos por toda a experiência do capitalismo e da própria cooperação. À cooperação só pode desempenhar um papel socialista na medida em que constitua um elo do sistema que evolui para o socialismo com base m s suas próprias /orças e nas suas próprias tendências internas.” Preobajenski, Nova Econômica.

[1] Disponível no link http://pt.scribd.com/doc/184526236/Marx-Et-All-Cooperativismo-e-Socialismo.

 

 

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