Nota #7 [11/02/2014]

23. Parrhesia. Na primeira das conferências de Foucault sobre a parrhesia recém-traduzidas em português na revista Prometeus (Ano 6, nº 13, Edição Especial), há um trecho que resume de maneira lapidar o sentido do termo grego em torno do qual giram todas as dez conferências:

“(…) a parrhesia é um tipo de atividade verbal em que o falante tem uma relação específica com a verdade através da franqueza, uma certa relação com a sua própria vida através do perigo, um certo tipo de relação para consigo mesmo através do criticismo (autocrítica ou crítica às outras pessoas) e uma relação específica para com a lei moral através da liberdade e do dever. Mais precisamente, a parrhesia é uma atividade verbal na qual um falante expressa sua relação pessoal com a verdade e arrisca sua vida porque reconhece o ato de dizer a verdade como um dever para melhorar ou ajudar outras pessoas (assim como a si mesmo). Na parrhesia, o falante usa sua liberdade e escolhe a franqueza ao invés da persuasão, a verdade ao invés da falsidade ou do silêncio, o risco de morte ao invés da vida e da segurança, o criticismo ao invés da bajulação, e o dever moral ao invés do interesse próprio e da apatia moral.” (p. 9)

A primeira nota característica do conceito de parrhesia é, pois, o fato de ser uma “atividade verbal”. Podemos esclarecer isso a partir da referência que, na mesma conferência, Foucault faz à modernidade: enquanto nesta a evidência é uma experiência mental, no caso da parrhesia é na atividade verbal mesma que se dá a evidência, isto é, a coincidência entre crença e verdade (p. 5-6). “Verbal” é, pois, o oposto de “mental”, e em ambos os casos está a relação entre o ser  falante/pensante (a crença) e o falado/pensado (a verdade), relação esta costurada pela evidência. Ainda tendo como ponto de partida a modernidade, poder-se-ia dizer que o que está em jogo é uma oposição entre “interno” e “externo” – a mente e a fala.

São quatro as relações que vão enquadrar o tipo de “atividade verbal” que é a parrhesia: 1) a relação com a verdade; 2) a relação com a vida; 3) a relação consigo mesmo e com os outros; 4) a relação com a lei moral.

1) A relação com a verdade é a franqueza. Enquanto fala a verdade, o parrhesiastes se opõe tanto a quem fica em silêncio (pois fala) quanto à falsidade (pois o que fala é a verdade). Enquanto um que é franco, ele se opõe ao que visa persuadir (o retórico, o sofista), pois: (a) sua preocupação é dizer o verdadeiro independentemente de isto convencer ou não o interlocutor; (b) evita os artifícios (retóricos) que podem ser obstáculo a que tudo o que ele tem em mente seja dito. Justo por isso, já tardiamente, quando a parrhesia for estudada por Quintiliano como figura de retórica, ela será considerada, a rigor, como uma não figura, por ser a fala completamente natural (p. 10).

2) A relação com a vida é a coragem, isto é, a disposição a correr perigo pela verdade. Correr perigo não significa aqui apenas perigo de morrer, mas pode ser também o colocar em risco a relação que se estabelece com o interlocutor em questão. Essa coragem se manifestaria também em um segundo aspecto: no fato de que aquele a quem o parrhesiastes se dirige ou sobre quem ele fala a verdade é sempre em algum sentido superior; a parrhesia seria sempre “de baixo” para “cima” (p. 8): a maioria na sociedade democrática, sobre quem Sócrates revelava a verdade; o tirano Dionísio II, a quem Platão se dirige estando na sua corte. Curioso que isso parece invalidar a posição de parrhesiasta na relação entre iguais, entre amigos. Talvez por isso mesmo, quando Sócrates se apresenta no papel de parrhesiasta diante de Alcibíades, é preciso que isso se dê na relação erótica que diferencia, como níveis diversos, a posição de amante e de amado, mas de maneira que haja aí uma inversão de papéis: Sócrates, mesmo mais velho, ocuparia a posição (inferior, “passiva”) do mais jovem em relação ao mais jovem, Alcibíades, que ocupa aí a posição do mais velho, o que sai a procura dos mais jovens. Por outro lado, na medida em que Sócrates diz a verdade sobre Alcibíades (e em geral o parrhesiastes sobre o interlocutor), não ocupa ele o lugar privilegiado sobre aquele sobre quem fala? Nesse caso, a inferioridade de Sócrates talvez tenha que ser procurada em outro lugar: na condição familiar e econômica de Alcibíades – mas nos demais casos seria preciso ver como isso se resolve. De qualquer modo, o que garante que um rei ou um tirano não possam ser parrhesiastes (embora participem do “jogo da parrhesia” de outra maneira) é justo o fato de que não tem quem lhes seja superior (no seu âmbito) e (mas isso não convence muito) o de que eles não teriam o que arriscar (o que é convincente apenas caso se pense o risco em um sentido um pouco mais restrito, como risco de vida, risco de perda de uma relação especial com alguém).

3) A relação consigo mesmo e com os outros é a relação de crítica. O parrhesiastes se dirige ao outro seja para falar francamente sobre a verdade do outro, seja para falar francamente sobre a verdade acerca de si – e, em ambos os casos, o que está em jogo parece ser apontar a falha, a falta, o problema. Nesse sentido, a parrhesia se opõe à bajulação: nesta, se diz o que o outro “quer” ouvir; naquela, se diz a verdade que o outro (muitas vezes) “não quer” ouvir. Na medida em que a crítica é um modo de cuidar de si (e do outro), desde a admoestação socrática de Alcibíades até a educação da alma epicurista, a parrhesia se liga ao cuidado de si (epimeleia autou), como técnica associada a este cuidado. Além disso, o parrhesiastes é um que prefere a si como um que diz a verdade, que é franco, mesmo sob o risco que ele coloca a si com isso – e, dessa maneira, cuida de si.

4) A relação com a lei moral é a relação de dever, de responsabilidade moral. O parrhesiastes não diz a verdade que critica a si e ao outro por constrangimento externo, mas porque considera que deve fazê-lo. O torturado que diz a verdade não é um parrhesiastes, por ex. Nesse sentido, ela (a) se opõe à apatia moral e (b) vai além do interesse próprio, particular.

Embora não fique explícito o que se entende por verdade aqui, caso se considere que o parrhesiastes diz sempre a verdade, isso poderia ser entendido em ao menos dois sentidos, um mais fraco e outro mais forte. No mais fraco, verdade equivale a franqueza: o que está em jogo é a disposição subjetiva de quem fala em relação ao que ele fala – ele crê de verdade que o que ele diz corresponde àquilo que é real para aquele sobre quem ele fala (si mesmo ou o outro). No mais forte, verdade equivale a corresponder ao que de fato é aquele de quem se fala – ela é objetiva.

O problema com essa separação é que ela soa muito moderna, ao basear-se na distinção entre subjetivo e objetivo. O quadro se complica ainda mais ou, antes, a questão muda de figura se, como diz Foucault, a questão para os antigos não era a questão cética de saber como é que o parrhesiastes sabe que o que ele diz é verdade, mas sim a questão “prático-político-moral” de saber que características identificam o indivíduo como um parrhesiastes. Entram em jogo aqui certas qualidades morais – e Sócrates é, aqui, novamente o paradigma.

Uma outra complicação é a de que não há, no texto em que nos baseamos, e que pretende dar conta das características essenciais da parrhesia, uma referência à noção de produção de verdade, que pareceria implícita na ideia de que esta é uma “forma alethúrgica” (expressão que, sintomaticamente, também não aparece no texto). “Verdade” parece ser, antes, aqui, um dado que o parrhesiastes traz à tona, mas que está lá para quem tem olhos para ver. O conceito de verdade seria aí também constante: nada mais nada menos que a velha e boa correspondência – garantida aqui pelas qualidades morais do enunciador. O que se produz, no máximo, é o discurso verdadeiro. A não ser que admitamos uma ontologia em que a verdade só existe enquanto produção discursiva: o que estava lá para ser constatado é posto retroativamente pelo discurso – e a ilusão (transcendental) estaria em não ter olhos para esse percurso produtivo.

Seja como for, em que tudo isso poderia contribuir para pensar a posição de Paulo? Ao que parece, só, ou sobretudo, de maneira negativa. Essa discussão diz o que a posição de Paulo não é: a) o que el declara não é a verdade sobre um ou outro interlocutor particular, mas a Verdade enquanto tal universalmente válida para cada um; b) no franco falar, as qualidades morais que identificam o indivíduo contam; na mensagem paulino, é justo isso que não conta, é indiferente; c) o perigo de si é essencial ao parrhesiasta; para o cristão, esse risco, mesmo que exista, mais uma vez não é o que conta; d) o parrhesiasta é inferior a seu interlocutor específico e, pois, depende dessas distinções de posição; a mensagem do Cristo torna a todos indiferentemente irmãos.

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