Nota #7 [12/11/2013]

Heidegger com Lenin, via Zizek.

“Somente a repetição faz surgir a diferença pura. Em sua famosa análise em Ser e tempo, quando Heidegger descreve a estrutura ex-estática da temporalidade do Dasein como o movimento circular que vai do futuro ao presente, passando pelo passado, não basta entender isso como um movimento em que eu, partindo do futuro (as possibilidades diante de mim, meus projetos etc.), volto ao passado (analiso a textura da situação histórica em que fui “lançado”, em que me encontro) e, daí, engajo-me no presente para realizar meus projetos. Quando caracteriza o próprio futuro como “tendo-sido” (gesewene) ou, mais exatamente, algo que é “como tendo-sido” ( gewesende), Heidegger localiza o próprio futuro no passado – não, naturalmente, no sentido de que vivemos num universo fechado em que cada possibilidade futura já está contida no passado, de modo que só podemos repetir, realizar, o que já está presente na textura herdada, mas no sentido muito mais radical de “abertura” do próprio passado: o passado não é simplesmente “o que houve”, ele contém potenciais ocultos, não realizados, e o futuro autêntico é a repetição/recuperação desse passado, não do passado como foi, mas daqueles elementos do passado que o próprio passado, em sua realidade, traiu, sufocou, deixou de realizar. É nesse sentido que deveríamos hoje “repetir Lenin”: escolher Lenin como herói (parafraseando Heidegger) não para segui-lo e fazer o mesmo hoje, mas para repeti-lo/recuperá-lo no sentido exato de trazer à luz os potenciais não realizados do leninismo.”

Zizek, Em defesa das causas perdidas, p.152

Em defesa das causas perdidas, Zizek tenta defender uma leitura que encontre na filosofia de Heidegger uma possibilidade política radical de emancipação. Primeiro ele parte dos constrangimentos dos heideggerianos e da raiva dos anti-heideggerianos da adesão do mesmo ao nazismo: enquanto os primeiros tentam criar uma espécie de isolamento da teoria em relação à pratica política (inclusive buscando sustentar teoricamente, tipo a errância no plano ôntico revela a inautencidade fundamental de um revelação do sentido Ser), os antiheideggerianos tentam detonar todo o edifício teórico dele relacionando as categorias fundamentais do seu pensamento à ideologia nazista. O passo inicial de Zizek é defender que os dois procedimentos são equivocados ou incompletos, há sim uma vinculação mais fundamental entre os planos ônticos e ontológicos do seu posicionamento político e por outro lado é errado detonar o pensamento heideggereano via ideologia nazista (não é o nazismo que explica o pensamento heideggeriano, mas o pensamento heideggeriano que “explica” o nazismo).

A crítica do Zizek é que, no momento decisivo de sua filosofia, Heidegger não se embrenhou suficientemente na política. Lendo os textos pré-reitorado, sabemos que Heidegger criticava com virulência o nazismo hitleriano (isso é mais do que límpido nos cursos sobre Nietzsche) e, por outro lado e em diversos momentos, defendia uma outra direção para o nacional-socialismo. Zizek aceita a tese de que Heidegger estava “disputando” a ideologia nazista. Mas o problema para ele é que, diferente dos heidegerrianos que viram nisso um erro, Heidegger não teria “defendido” suficientemente “seu” nacional-socialismo. O “último” Heidegger, o Heidegger da linguagem e dos estudos de poesia, foi um “recuou” (não por acaso, Zizek costuma dizer que o auge do pensamento heideggeriano é o manuscrito Von Ereignis) (não por acaso II, Zizek sacanea que este “recuou” para a poesia serviu de mote para o “heideggerinismo-recluso” que surgiu nas universidades, um heideggerianismo que se detém no sentido do ser e que recusa a esfera ôntica, via fetiche da arte e da poesia, caindo numa espécie de shonpenhaurinismo mais bem acabado). O seu silêncio posterior foi um equívoco tático. Assim como os comunistas pós-Stálin buscaram fazer ferrenhamente uma crítica do “socialismo realmente existente”, Heidegger teria que ter feito algo semelhante a uma crítica do “nazismo realmente existente”. Isto, inclusive, seria de efeitos políticos interessantes, já que inocularia no uso do próprio significante “nazismo” o impossível que a ideologia nazista oficial tentou tamponar, e esta “sombra” imaginária fascista que ronda a Europa talvez seria menos forte.

A autencidade da posição política de Heidegger está na sua tentativa de sustentar um acontencimento – Ereignis (e aqui teríamos que discutir o que é acontecimento). O problema para Zizek é que esta sustentação se deu na direção errada (o título do capítulo é “Intelectuais radicais, ou por que Heidegger deu o passo certo (embora na direção errada) em 1933”). Contudo, para Zizek (e aqui a parte ainda mais polêmica…), esta direção errada não foi um simples erro tático, mas uma insuficiência de seu próprio edifício teórico. As condições que permeiam o nível ôntico (os procedimentos que constituem o mundo da técnica, por exemplo) não figuram em segundo plano quando tentamos sustentar a dimensão originária da linguagem, mas justamente o contrário – é somente quando entramos decidamente na ordinariedade ôntica que o sentido do Ser se revela. Para Zizek, a errância de Heidegger no nível ôntico (na política) não foi um erro, mas o contrário, foi acanhada. Bom, aí há todo uma discussão sobre o lugar da pulsão de morte no pensamento do Heidegger e o lugar do fetichismo da mercadoria na crítica do niilismo tecnológico. De todo modo, Zizek finaliza dizendo que se Heidegger tivesse embainhado decididamente a política ele perceberia que a direção certa é o comunismo.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *