NOTA #7 [14/03/2017] (RJ I)

Militância e Sofrimento A ideia dessa nota surgiu quando da empolgação pela notícia de que poderíamos cada vez mais consolidar o lugar do Ceii como uma espécie de “Centro de Logística” das esquerdas, cujo papel (ou finalidade) seria e tem sido fornecer os meios para que outras organizações realizem seus fins e estudar esses meios mesmos. Talvez esses não sejam os meios sem fim de que fala Agamben (e de certa maneira Benjamin) antes dele; mas duas das maneiras de desativar, de profanar o valor que é valor de uso para outros, de, portanto, usar sem valor estão aqui certamente presentes — o estudo (a prática possível e talvez necessária para quem quer desativar a ordenação jurídica que nos governa E seus fundamentos) e a brincadeira, o jogo com o que é em geral tratado com (excessiva) seriedade em outros lugares, e isso dentro do próprio espaço organizativo, não na mesa de bar depois (vide a relação com o stalinismo, por ex.). Mas isso é a margem da nota, não seu centro. Compartilho da empolgação dxs camaradas. Volta e meia ela aparece na militância. Mas esse entusiasmo raramente contagia o trabalho cotidiano, onde está, se não toda, boa parte da verdade da militância. É duro ter que fazer um esforço para reafirmar para si que faz sentido militar. Surge do cotidiano o problema, mas se manifesta antes de cada jornada de trabalho. Sobretudo se a militância é vista como um dever, onde o prazer e o gozo, se não são proibidos, são acessórios. Há a culpa. Quando se luta, ou se pretende lutar, ou se diz lutar (formulação em que a distância entre desejo (ou, antes, demanda) e real (ou, melhor, realidade) se manifesta com mais evidência), quando, dizia, se luta, pretende lutar ou se diz lutar pelos que sofrem, é comum se perguntar sobre o direito de sofrer. Ao menos para quem luta a partir de condições materiais bem melhores do que as daqueles por quem luta ou daqueles junto a quem diz lutar. Pois aí surge a pergunta sobre o direito de sofrer, de ter esse sofrimento burguês, “privado”, sem nenhuma relação direta a uma necessidade material como causa, “com tanta gente do lado sem ter nem o que comer…” O dispositivo pode parecer tosco. Pode ser tosco. Mas não raro funciona essa hierarquização de sofrimentos, que funda a ideia de um direito ao sofrimento e aos graus deste. O que nem sempre entra na conta é o fato de que o sujeito suposto sofrer mais, ou sofrer melhor, ou sofrer corretamente, talvez também tenha esses sofrimentos “privados”, “burgueses” ou simplesmente “subjetivos”, no sentido mais comum do termo. Também não se considera de modo suficiente que, se o sofrimento é eminentemente subjetivo, individual, com que régua se faz uma hierarquia dele? A régua das condições materiais não seria demasiado externa para dar conta disso? Há também a divisão entre a vida privada, pessoal, e a vida pública. A vida privada que está uma merda e a militância que serve de fuga mal ajambrada. Ou a vida pessoal que está tão boa que não se quer sair de casa para nada — mas se sabe, ou se pressente, que o que sustenta a bondade daquela é, de certa maneira, a existência desta, nem que seja para que a primeira no contraste. E a dúvida se isso pode ou deve ser posto para o coletivo — ou é assunto privado. Há ainda o medo de que toda essa ladainha seja só tédio, desânimo, cansaço, sono, cerveja ou domingo. Coisa que passa exclusividade depois envergonha. Ficção que se ouviu em algum lugar e se mente que é sobre si. Mesmo que se saiba que a coisa, se não permanece sempre aí, volta, e insiste. E que essa mesma incerteza se o que está em jogo é algo ou nada compõe a coisa. Há, last but not least, o narcisismo da confissão e o medo desse narcisismo; a vaga esperança de que todos vão olhar para isso com consideração, até com identificação no melhor dos casos, e o medo de que isso aconteça mesmo, e se perca a exclusividade desse tipo de sofrimento — que, na real, deveria permanecer privado da militância. Vai cair tudo no mesmo boeiro anônimo, e isso é um desespero e um bálsamo. Em todo caso, a impotência diante (do sentimento) da impossibilidade de acompanhar os companheiros bem como de fazer deles companhia em suas campanhas. Um(a) merda, em suma.

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