NOTA #7 [16/05/2017] (RJ I)

[Contexto: camaradas devem notas a uma célula a ponto de, pelo projeto, poderem ser desligados do CEII. Abre-se uma discussão virtual da qual os próprios envolvidos participam, produzindo fragmentos de elaboração escrita.] Correndo o risco de soar burocrático, formalista e pragmático demais (não que isso seja necessariamente um problema), mas ocorreu a alguém que o que foi produzido aqui por todos e em especial pelos camaradas 419 e 431, que deram azo a essa postagem, se transformado em nota, é mais do que suficiente para sanar os débitos? Levanto essa bola não para indicar uma solução formal e rápida ao problema, nem tampouco para minimizá-lo, mas para apontar que o mecanismo formal que indica o desejo de manter o laço com o coletivo (algo paradoxalmente) pode acolher em si a reflexão que o põe em questão e, mesmo, a reflexão sobre o desejo de eliminar o próprio mecanismo formal. Ajuda também a ter uma ideia da possível plasticidade desse mecanismo e a encará-lo como me parece ser mais produtivo: como gesto que materializa o desejo de manter um engajamento no coletivo, não importando o conteúdo da nota. Mas daí surge (pelo menos) uma questão: quem autoriza esse gesto — apenas o militante em questão, ou o coletivo também pode fazê-lo? Por um tempo, no CEII Rio I de certa maneiro o coletivo poderia autorizar isso: produzíamos notas pelos outros para garantir as reuniões sem que esses outros o solicitassem. Funcionou por um tempo, mas depois gerou incômodo. O procedimento que encontramos para dar vazão a esse incômodo em protocolo de organização foi simplesmente o membro sinalizar que não poderia fazer a nota e pedir ao coletivo se algum camarada poderia fazer. Se houvesse outro camarada que pudesse encaixar isso na sua economia privada de tempo, esse camarada fazia a nota. Acho que ainda não pensamos suficientemente o quanto há de “comunização não invasiva” dos problemas privados que há nesse procedimento simples. De modo que, se a discussão aqui vai ser usada ou não para sanar os débitos, me parece que a coisa passa sobretudo pela manifestação do que querem 419 e 431, que estão implicados nesse débito que, não obstante, é do coletivo. Mas o bacana é que, me parece, ele trouxe à tona com mais evidência o mínimo do mínimo da nota: a sinalização de manter-se no coletivo, no matter why, ainda que os problemas privados, no matter which, possam quase impedir esse engajamento. Resta ao coletivo a questão de saber até onde tem condições materiais (e subjetivas) de suportar pelo comum esse desejo singular de engajamento que passa por problemas materiais e subjetivos. Acho uma puta questão esta. E o acho, inclusive, porque o “no matter why” e o “no matter which” não significam que o coletivo não se importa com o problema, mas que temos a liberdade de, em tempos de problematização generalizada e exposição da vida privada para desculpar-se por não engajar seu tempo livre na militância, não por para jogo as razões privadas que nos fazem nos engajar no coletivo nem os motivos particulares que nos impedem de fazê-lo. Mas vejam: essa “potência de não”, essa liberdade de “preferir não” é a maior abertura para também trazermos, sim, essas motivações e aquelas razões para a discussão coletiva. O duro é que tal potência e liberdade nos entrega completamente a responsabilidade e o poder de fazer isso ou não. Essa é para mim a forma mínima do problema que está no cerne do projeto do CEII (até hj, pelo menos): pensar sob o signo do poder. Cabe a nós todos, que queremos esse coletivo, criar as condições materiais e subjetivas para que esse poder sejam não um peso individual, mas uma responsabilidade coletiva. Enfim, camaradas 419 e 431, desculpem-me essa lenga lenga toda. Espero que vcs continuem conosco, porque a forma como vcs se implicaram e engajaram no círculo já deu muito o que pensar. E se isso surgiu a partir de um problema na aparência “meramente burocrático”, está aí a principal virtude desse nosso vínculo formal mínimo, a nota (mas não apenas a nota): dar problema.

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