NOTA #7 [19/09/2017] (RJ I)

ARTE E HIPÓTESE COMUNISTA

Camaradas,

cometi um resumo, digamos, “expandido” para o “Arte e Hipótese Comunista”. O dito-cujo segue abaixo.

Não sei se devo me inscrever para a cota do CEII ou para a ampla concorrência. Peço ajuda, quanto a esse pormenor e tudo mais que vcs puderem, aos universitários, Victor e Gabriel, que estão aí à frente da organização, mas a que mais quiser ou puder ajudar.

Sei que fico de bom grado no fim da fila. Já mandei trabalhos para outro “[ ] e a Hipótese Comunista”, ainda que não tenham apresentado pessoalmente, e já tem gente que chegou antes aí. Também ceii que não ceii se faço um trabalho razoável à tempo — embora só jogar as ideias que estão aí embaixo talvez já desse um caldo para uns 20 minutos de apresentação, é uma dor de barriga na hora das perguntas, para fugir ao massacre. Bom, julguem por vcs mesmos:

Da crítica da arte à arte da crítica: o impossível lugar da crítica da ideologia

Uma das caracterizações mais comuns da ideologia é a que a toma como um discurso parcial cuja operação resulta na manutenção e reprodução da dominação política, na exploração econômica, da desigualdade social — em suma, na manutenção da divisão da sociedade em classes e no predomínio de uma delas sobre as demais. Essa operação mesma é multifacetada: pode se dar via mascaramento, dissimulação, justificação da estrutura socioeconômica e política tal como ela é. Todavia, em todos esses casos parece que se pode discernir um mesmo traço na operação ideológica: o mascaramento (ou a dissimulação, ou a justificação) é, de modo mais ou menos explícito, “reflexivo” — no sentido de que, além de mascarar (ou dissimular, ou… justificar?) o real da luta de classes, a ideologia mascara a sua própria parcialidade. E isso mesmo quando, ou sobretudo quando ela pretende dar conta da totalidade. À (dupla) parcialidade — ou particularidade — da ideologia, a crítica ideológica oporia o comum, ou universal. Por muito tempo — pelo menos de Marx a Althusser — esse universal, ou comum, foi buscado na ciência. Sem, a princípio, nos determos nos problemas desse procedimento, o presente trabalho procura pensar algumas razões pelas quais podemos considerar que não é a ciência, mas a crítica enquanto tal, com o perdão do aparente pleonasmo, o lugar da crítica da ideologia. Isso seria verdade sobretudo se considerarmos a crítica do juízo tal como pensada por Kant. Nesse sentido, seriam sobretudo as seguintes características que permitiriam utilizar a crítica da arte (a bem dizer, do juízo estético) para pensar a “arte da crítica (da ideologia)”: 1) o caráter não predicativo, na medida em que “sem conceito”, do juízo de gosto — que pode escapar, pois, aos predicados (particulares) próprios à ideologia; 2) o caráter comum, universal, não obstante não predicativo, do juízo em jogo aí — que pode escapar à particularidade (predicativa) dos “juízos” ideológicos; 3) o caráter sensível do comum em jogo aí, na medida em que o universal é o que apraz universalmente — colocando-se no terreno próprio da ideologia, o da partilha (policial) do sensível; 4) o estar entre natureza e liberdade, entre ciência e metafísica/moralidade da crítica do juízo — e poder se situar no limiar que é explorado pela ideologia (a naturalização do que é da ordem da liberdade e vice-versa etc.); 5) o fato de o livre-jogo da faculdade de julgar, ao envolver entendimento e sensibilidade, colocar em jogo a totalidade do sujeito — contra a parcialidade ideológica; 6) o fato, talvez menos evidente, de que, com tudo isso, o sujeito aí é o sujeito universal-concreto ou universal-singular que experimenta a universalidade na singularidade de uma experiência com uma obra (natural ou artificial) singular — um sujeito que, mesmo contando com os predicados parciais e particulares do objeto que tem diante de si, como que salta sobre eles de sua singularidade à universalidade e, a bem dizer, em direção à (uma, sua) singularidade universal. Na medida em que é assim, o sujeito que julga e critica põe a si mesmo em questão enquanto um que tem a forma ou que existe como singular — e, portanto, põe a prova essa condição comum, universal: a de ser singular. Aí, não é mais a ligação dos objetos — de mercadorias — que perfaz a universalidade abstrata da realidade (do capital), mas a ligação de sujeitos — de pessoas, de caras — que perfaz, na singularidade da crítica, a universalidade desta como condição comum. Entre universal e singular, entre natureza e liberdade, entre ciência e metafísica/moralidade, a a crítica da ideologia só teria lugar então enquanto se situasse no impossível da situação ideológica em questão e aí denunciasse as lacunas da ideologia. Ao fazer isso, ela ao mesmo tempo traz para o comum e singulariza o que é parcial, particular; faz, pôs, o trabalho de performar um experimento que organiza as coisas e as pessoas de modo que universal e singular tenham lugar ao mesmo tempo, nos interstícios da parcialidade e da particularidade ideológicas. Isso não que dizer senão que toda a crítica da ideologia só pode ter lugar no horizonte próprio ao comunismo.

Palavras-chave: juízo estético; ideologia; comunismo; crítica do juízo

Abraços de luz e beijos de (p)sol!

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