Nota #8 [01/04/2014] (RJ-I)

83. Do Conceito de Verdade (2). Verdade como desvelamento. Até onde posso ver, uma das questões que é preciso colocar explicitamente quando se trata de pensar a noção de Verdade em Badiou e que ainda não enfrentamos é a da relação entre esta noção e os demais conceitos de verdade. Em especial, creio que interessaria pensar a relação com dois outros conceitos de verdade: a verdade como correspondência/adequação e a verdade como desvelamento.

A noção de desvelamento é, como se sabe, pensada por Heidegger em sua leitura dos gregos (a princípio, ao menos). Nesse sentido, uma formulação precisa da certidão de nascimento desse conceito de verdade seria: a verdade é desvelamento para os gregos desde Heidegger.

O interesse em pensar a relação entre o conceito de verdade em Badiou e o conceito de verdade como desvelamento pode se ancorar em várias razões, desde o simples fato de ser também uma tentativa de por em questão o conceito tradicional de verdade até (mais importante) o fato de que Heidegger, por fim, liga a noção de desvelamento e, pois, de verdade à noção de eventoq acontecimento (Ereignis).

A articulação entre evento e verdade em Heidegger parece ter mais uma proximidade com Badiou: também naquele o “Sujeito” (o existir (Dasein)) é, não o correlato de um objeto, mas o correlato daquilo que se dá de maneira peculiar no evento – o ser, o “vazio” (o ausente) de um mundo, de uma situação. Também em Heidegger isso que se esconde em se desvelando como um sentido, um mundo (o ser) é rigorosamente nada, na medida em que é em absoluto diverso do entre. Também aí se dá algo peculiar com isso que nós somos: de animais racionais, de humanos que somos, ou de que a tradição nos fez, podemos vir a ser o existir (Dasein) que sempre já somos, antes.

Todavia, verdade em Heidegger não parece ser construção/criação, mas desvelamento de ser. Com toda probabilidade, ele reprovaria todo vocabulário que fizesse parecer que nós, enquanto indivíduos, homens ou sujeitos modernos (no sentido enxovalhado do termo), temos algum poder sobre o modo e o que se desvela. Isso talvez também pudesse ser aceito por Badiou: de fato, não é um indivíduo, um homem, um animal humano ou muito menos uma vítima que produz o evento. O evento atravessa-o(s), e faz dele(s) (parte de um) Sujeito de verdade. Contudo, a verdade em Badiou não seria o desvelamento do ser no evento, mas o processo que se instaura a partir desse desvelamento pela fidelidade subjetiva. Não obstante, pode-se pensar a partir da (pretensa) recusa heideggeriana a um vocabulário da construção o indiscernível entre criar, descobrir e ser tomado por que se dá n(a fidelidade a)o evento.

Tampouco eles concordariam quanto à “raridade” ou não dos eventos: tudo indica que para Heidegger houve apenas um evento propriamente dito: o Primeiro Começo, que deu origem à história do ocidente enquanto história de diferentes nomes para o ser, mas nomes que, em última instância (aquela desde a qual parece pretender falar Heidegger), denotam uma mesma compreensão de ser: aquele em que este é experimentado, a partir do tempo, como presença (Anwesen, Anwesenheit). Tal compreensão se faz história como metafísica e esta, em linhas gerais, como esquecimento do ser.

Com relação a isso, a peculiaridade da posição heideggeriana é: (i) ele se posta na época do acabamento (no sentido duplo de consumação e fim) da metafísica como técnica, esquecimento dobrado sobre si (esquecimento do esquecimento do ser, pois); (ii) trata-se, pois, de uma época em que não se dá (ainda) ou não se dará (mais), não aparece uma medida para o ser (como o foram, à sua época, ideia, energeia, espírito, vontade de poder); (iii) se é verdade que nenhuma metafísica é mais possível, nessa época abre-se a oportunidade de um Novo Começo; (iv) esse começo só pode ser preparado; o máximo que podemos fazer é cuidar do espaço para que ele possa se dar; mas não depende de nós fazê-lo acontecer (“só um deus pode nos salvar”).

A tudo isso, opõe-se a quase banalidade baioniana do evento e o fato de que este não é de caráter metafísico, nem mesmo filosófico, mas sempre se dá em um campo externo à filosofia, cuja compossibilidade em uma época esta é responsável por pensar; e esses campos são, como se sabe: a ciência, a política, a arte, o amor.

Last but not least, é preciso pensar, entre outras coisas, o fato de que o se dá quando um animal humano devem Sujeito é o “nascimento” do Imortal que aquele é. Já em Heidegger a experiência do desvelamento do ser é, no existir (Dasein), a experiência da finitude e, assim, no limite, do ser mortal.

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