NOTA #8 [16/05/2019] (RJ I)

Já passou da hora de diagnosticarmos que parte considerável da esquerda têm sofrido – ou feito sofrer – de algo que poderíamos chamar de “burrofobia.”

São incontáveis as situações em que uma desqualificação de alguém como burro, imbecil, ou outro sinônimo surge da boca ou do dedo teclador de um esquerdista. A própria convivência com os supostos “burros” se tornou problemática, largamente afetada, a ponto de às vezes acarretar distúrbios na relação ou convívio, até mesmo rupturas. Esse destrato contra (aquilo que vemos como) a burrice deve ser interrompido.

A aversão e o preconceito, a “fobia”, penso, decorrem também de nossa incapacidade de compreender – e consequentemente, dialogar com (ou convencer) – quem pensa diferente de nós. Quem apostou em uma outra proposta para tentar resolver as coisas. Da estreiteza de nossa teoria, estreita para a apreensão da complexa realidade atual, derivam as grosserias que temos cometido. Chamar o outro de burro recobre nossa própria falta ou carência (ou melhor, nossa própria burrice) em analisar a realidade. Recobre nosso fracasso em causar adesão a nossas ideias – algumas talvez já incompatíveis com os desafios atuais – de transformação dessa mesma realidade, que, enfim, temos compreendido mal.

Da mesma forma que atacamos os conservadores por sua intolerância ao diferente, deveríamos, com a mesma radicalidade, acatar, nós também, a diferença do pensamento. Talvez colocando as coisas nesses termos, digamos, fóbicos, nós voltemos a enxergar indivíduos que aderiram a outro projeto político – em tantos casos não de modo irreversível – como sujeitos pensantes.

Afinal, somos nós quem tradicionalmente se esforçou por tentar compreender, dar voz, visibilidade, uma existência social, enfim, a quem não era reconhecido. Cumpre agora reconhecer a estes que nós mesmos temos “oprimido”, reconhecê-los em sentido amplo. A própria amplitude de nossas políticas vai depender também de quão amplamente nós saibamos (re)conhecer esses que temos maltratado.

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