NOTA #8 [17/07/2018] (RJ I)

Sobre o nome comunismo

Uma precaução de percurso: a ideia aqui não é propor uma reflexão detida sobre o (nome) comunismo – o que eu não tenho conhecimento para fazer – mas sim a de comentar e sublinhar algumas consequências práticas de seu uso no cotidiano. Uma segunda precaução: essa é uma nota pessoal.

A dificuldade que acompanha alguém declarar-se comunista não deve escapar aos membros do ceii, mesmo a quem porventura não se inclua nesse nome: fora de um certo nicho relativamente restrito – e não importa se é esse o nicho em que principalmente circulamos, o que considero aqui é o fora dele –, nomear-se comunista é um ato que cria situações (ou complicações). Seguem-se espantos, certas perguntas ou exigências inquisitivas. Por se tratar de um nome marcado, há uma demanda, implícita ou não, por que se apresentem justificativas, explicações e defesas. Implica, ainda, haver-se com (um)a história contada do comunismo, com as ideias gerais que a maior parte das pessoas possuem dele, com os preconceitos, com a resistência e a rejeição bem difundidas daqueles que conhecem de longe o termo (ou mesmo de alguns que o conhecem bem, mas o rejeitam, seja qual for o motivo). Em suma, há que se prestar contas; isto é, presumindo que haja oportunidade para tanto. Com certeza houve um dia – talvez ainda haja – uma disputa pelo significado do comunismo. Porém, a julgar pela reação de grande parte das pessoas e pelas noções que possuem acerca do mesmo, pode-se dizer que nós estamos perdendo a luta, se já não a perdemos. O que significa, nesse cenário hostil, não ceder desse nome?

Nomear-se comunista implica também que certas opiniões e condutas serão lidas através dele. Em vez de abrir canais de diálogo, muitas vezes esse nome irá fechá-los de antemão. Da desqualificação sumária de qualquer ideia emitida por alguém que ousa dizer esse nome como seu nome até a animosidade e o enfrentamento violento, dependendo de para quem isso está sendo dito, marcar-se de uma tal forma pode ter consequências graves e sérias para o convívio social, para o ambiente de trabalho, até mesmo para as relações íntimas, para ir e vir em certos espaços. Com sua capacidade de atrair detratores, esse é um nome que comporta um certo risco.

Determinados nomes são também mediadores sociais, que articulam relações, afetos, consensos e dissensos. Ninguém que se designa comunista o faz apenas perante seus pares ou aqueles que comunguem de certos ideais; pode-se dizer, na verdade, que é justamente o oposto que sucede aqui: mesmo que esse nome não seja dito para os de fora, dados os riscos de assumir esse predicado, é visando-os principalmente que ele é dito. Se o comunismo se trata do movimento real que supera o estado atual, certamente não é para limitar-se ao seu nicho – ainda que nada obste que se inicie por ele – que se declara fazer parte desse movimento, mas justamente aspirando a transformação social ampla, posto que o estado atual a ser superado, requer que o seja potencialmente para todos e não apenas para alguns. Assim, dizer pertencer a esse nome é dizer de um lugar em que se almeja mudar o estado de coisas, ao mesmo tempo, não é isso que os outros ouvem. Assim, que relações e reações públicas espera alguém que se declara comunista? O que se acredita que os outros ouvem ao ouvir esse nome? Isso mais prejudica do que auxilia?

O Zizek, em algum momento, elenca quatro razões pelas quais ele diz ainda ater-se ao nome do comunismo (pelo menos é assim que me recordo): pelo histórico de levantes comunistas (Esparta, Haiti etc); porque os problemas prementes do presente são principalmente problemas de comuns: o meio ambiente, a biogenética, a propriedade intelectual; pela marca histórica do comunismo torná-lo uma espécie de significante que não pode ser apropriado pelos adversários (como fizeram, p. ex., com a democracia) porque certamente não iriam querer tomá-lo como deles; por último, por considerar o nome do comunismo um lembrete constante de quão terrivelmente erradas as coisas podem dar. Por mais que até sejam bons motivos, o fato mesmo de que precisem ser expostas razões para a manutenção desse nome, já deixa claro que é preciso se justificar, colocar (bons) motivos, deixa claro que esse nome exige explicações. E estas nem sempre são possíveis; e quando são, poucas vezes são suficientes para resgatar-lhe a dignidade, inspirando o desejo por ou a identificação com ele.

No primeiro tempo alguém se inclui na categoria dos comunistas, no segundo, em função desse vínculo, o que faz? Longe de fazer a revolução, pois já não é mais este o caso, parece que não se sabe. Afinal de contas, o que fazem (hoje) os comunistas? Esse segundo tempo não está previamente dado, e é esse o sentido do movimento real, que ele não seja determinado antecipadamente quanto a que forma deve assumir. Essa plasticidade formal é, a meu ver, um grande traço do comunismo; que ele não seja uma ideia à qual a realidade deve se conformar, mas um fenômeno dinâmico que a supera. A minha pergunta aqui é se a mesma plasticidade poderia ser aplicada também ao nome, ao significante histórico comunismo. Se ele já não couber mais no mundo, por todas as complicações práticas que esbocei apressadamente aqui nessa nota, e por outras ainda, de que devo ter passado por cima, será que estaríamos dispostos a, com o intuito de preservá-lo como ideia, ou hipótese, ceder desse nome?

[por fim, um desvio confessional: a camiseta do ceii, “não sou de direita nem de esquerda sou comunista” (acho que é isso), com a qual me deparei na semana passada, ilustra bem minha ambivalência com o nome: ela é totalmente precisa, mas eu jamais a vestiria pra andar por aí]

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