NOTA #8 [18/07/2017] (RJ I)

DUNKER, Christian. Reinvenção da Intimidade – políticas do sofrimento cotidiano. São Paulo: Ubu Editora, 2017, p. 117-199.

A ARTE DE IMBECILIZAR CRIANÇAS

A arte de perder não é nenhum mistério

tantas coisas contêm em si o acidente de perdê-las

que perdê-las não é nada sério

Perca um pouco a cada dia. […]

Depois perca mais rápido, com mais critério;

lugares, nomes, a escala subsequente da viagem não feita.

O poema de Elizabeth Bishop, “Uma arte”, deveria ser leitura obrigatória e diária para aqueles pais que se recusam a perder seus filhos para o mundo. Em vez de acompanhá-los nessa viagem, que não é em princípio desastrosa, eles querem ampliar o tamanho do mundo que eles mesmos controlam. O mundo em forma de família. O mundo em forma de prisão.

Na arte de imbecilizar crianças, os currículos autocráticos que nunca dão margem à escolha dos estudantes nem contemplam seus interesses, as seleções baseadas em exercícios mnemotécnicos, ou seja, as provas de múltipla escolha que exigem apenas memória, e as rotinas escolares poucos significativas concorrem fortemente com o receituário oligofrênico dos pais. Oligofrenia, lembremos, é uma antiga classificação psiquiátrica para os que são dotados de pouca inteligência e mantêm-se teimosamente em uma única direção de pensamento. Nesse sentido, a primeira tática para imbecilizar crianças consiste em protegê-las discursivamente de problemas. Evitar contato com as verdades dolorosas. A Bruxa e a Madrasta Malvada devem ser banidas, junto com o Lobo Mau. Em cima do piano não tem mais copo de veneno, mas suco azedo. A morte é apenas uma viagem. A forma afirmativa, pessoal e direta Atirei o pau no gato deve ser vertida para o mais sóbrio e correto Não atire o pau no gato, porque isso não se faz. Conta-se assim o suporte imaginário necessário para que a criança elabore seu sadismo, bem como masoquismo social que a cerca. De fato, a palavra imbecil provém do latim baculum, bastão de pastor. Alguém sem bastão é alguém que deve ser pastoreado pelos outros, alguém que não fará uso algum de seu bastão para se defender será, pois, um fraco e frágil… sem pau para atirar.

A segunda tática para não perder os filhos para o mundo consiste na sua cretinização. Os cretinos eram crianças que habitavam os vales da Suíça onde o sal continha pouco iodo. Sem iodo, elas desenvolviam uma deficiência cognitiva associada à disfunção da tireoide. Como não podiam mais ser educadas pelos pais, eram transferidas para as comunidades religiosas, daí o termo chrétien (cristão). E assim fazem os pais que entregam seus filhos para a escola como se ela tivesse não apenas que ensinar, mas educar, controlar, disciplinar, cuidar e assim por diante. E dessa forma ocorre com os que terceirizam a educação dos filhos, não apenas porque recorram a babás ou avós, escolas ou cuidadores de ocasião, profissionais ou amadores, mas porque entendem o processo de criação de filhos como a administração de uma extensão narcísica de si mesmos.

A terceira técnica na arte de não perder as crianças para o mundo consiste em mantê-las isoladas, em situação de indivíduo privado ou, como os gregos chamavam, estado de idiótes. A escola é um obstáculo para o novo espírito do neoliberalismo, que advoga que cada um de nós é uma espécia de livre empresa que deve escolher livremente seus fornecedores e aplicar seus investimentos segundo os princípios de otimização de resultados. Esses pais empreendedores sentem-se, segundo a prerrogativa de pagantes e clientes, no direito de elevar os princípios individuais e privados à dignidade da coisa pública. Educação é um empreendimento público, não é uma associação privada de interesses ampliados da família. Contudo, é assim que agem os que querem proteger a criança da norma, da lei e da regra cuja razão de ser é pública.

A arte de imbecilizar crianças, como se vê, é o contrário do que nos recomendava a poetisa americana. Ela consiste em reter para nós o que devir ir para o mundo, em temer desastres quando o pior desastre já está a acontecer. Quando percebemos quando dominamos essa arte, geralmente já é tarde demais e nossas crianças já se foram, da pior maneira possível, do modo mais lento, que as condenou ao estado de minoridade penal perpétua.

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