NOTA #8 [18/09/2017] (RJ I)

τεχνη, Gestell e o Sujeito Tardio:

Uma das questões fundamentais para a compreensão do Ser em Heidegger é a dimensão criativa que a origem da palavra Técnica possui em contraste com a Técnica Moderna. Caracterizada por dispor do mundo enquanto Ente, a Técnica Moderna se caracteriza por uma objetificação do real que responde a um fim, no entanto, ela não deve ser abordada somente por este viés teleológico. No entanto, teria sido a ciência moderna a assinalar a relação entre Sujeito e Objeto. A categoria do Sujeito moderno em seu modelo clássico caracteriza se por sua posição ativa diante do objeto, ele é a força que atua sobre o objeto para se chegar a um fim desejado, nesse sentido o desenvolvimento da técnica moderna nos trouxe a uma espécie de enquadramento em consonância com o Sujeito moderno que percebe o mundo em seu entorno, tal qual a um objeto a sua disposição. Por esta linha de raciocínio podemos dizer que a Técnica Moderna segundo Heidegger é algo em que não há pensamento, já que ela se ocupa da disposição das coisas enquanto Ente e não do Ser. Esta talvez seja a razão pela qual o Sujeito como categoria tenha se exaurido ou mesmo sendo considerado tardio em relação ao Reino da Técnica, afinal ele emerge desta condição e por assim dizer deste próprio enquadramento.

A Técnica Moderna esqueceu se nesse sentido, de sua verdadeira essência, e do próprio Ser. A palavra técnica encontra tem sua origem no sentido grego de τεχνη. O sentido originário da palavra revela que: τεχνη não diz respeito somente a um Desencobrimento mas sobretudo revelaria um sentido Criador do próprio Desencobrimento. É este processo de criar no desencobrir da coisa, que Heidegger nomeia como um modo de αληθεια.

 

Da mesma forma Heidegger indica que a palavra τεχνη designa em seu sentido amplo, conhecimento. Este é um conhecimento que não diz respeito somente a entender do que se está falando, mas o conhecimento que designa uma abertura, que se dá no próprio processo de desvelamento do que está velado ou do desencobrimento que está encoberto. Portanto τεχνη está vinculada a um modo de αληθεια.

A técnica obedece a uma força de “deixar viger” o que ainda não é vigente. Sua função é por tanto é trazer o vigor da presença do que ainda não vigora. Quando um artesão se senta diante de uma roda de fiar, busca tornar vigente o que se imaginou, o que se pensou produzir, e constituir a disponibilidade de um tecido. Assim, podemos dizer que a técnica obedece a uma força dispositiva para tornar disponível a disponibilidade. No entanto esta disponibilidade a que responde a técnica, constitui também um desencobrimento do Real que ao mesmo tempo em que desencobre, o encobre novamente. Desta maneira, algo do Real escapa ao desencobrimento que visa dispor da disponibilidade. Ora a técnica moderna já se caracteriza por tornar o meio a sua volta como objetos no sentido de disposição. Como exemplo, podemos citar uma usina hidrelétrica que dispõe das águas de um rio, de maneira a deslocá-las à disposição da geração de energia.

Esse desencobrir, como visto anteriormente não deve ser redutível a disponibilidade, ele de fato aparece em todo o percurso que constitui a técnica; no entanto, Isto inclui também a Técnica Moderna?

Podemos dizer que a técnica Moderna é a uma composição destinada a desencobrir transformando o disposto em disponibilidade. Composição ou Gestell diz respeito a uma força de reunião “ que desafia o homem a des-encobrir o real no modo da disposição, como disponibilidade” (HEIDEGGER, 2002) neste sentido composição diz respeito também a um tipo de enquadramento do real que marca a técnica moderna, mas que em si não possui nada de técnico. Por outro lado, Composição ou Gestell não indica somente um sentido explorador:

 

“ deve fazer ressoar também o eco de um outro “Pôr” de onde ele provém, a saber, daquele Pro-por e ex-por, que no sentido da ποιησις, faz o real vigente emergir para o desencobrimento. Este pro-por produtivo, (por exemplo, a posição de uma imagem no interior de um templo) e o dispor explorador na acepção aqui pensada, são, sem dúvida, fundamentalmente diferentes e, não obstante, preservam, de fato um parentesco de essência. Ambos são modos de desencobrimento, modos de αληθεια.” ( Heidegger, 2002, p. 24)

 

Portanto, Gestell ou Composição, e a técnica, correspondem na verdade a uma dinâmica do desvelar, do desencobrir e cobrir novamente. É nesta dinâmica que se daria o sentido criador da técnica que, enquanto modo de αληθεια permite a abertura de um horizonte de possibilidades pelo fato de em sua essência ela se constituir não como algo que dispõe a serviço da disponibilidade, mas sim pelo sentido criativo do desencobrimento.

Podemos concluir então pela descrição da Técnica moderna, que: este mundo marcado pela disposição da natureza como objeto se notabiliza por um mundo que segue a lógica das disponibilidades, caracterizando uma ordem que destitui o Ser de todo o seu vigor originário de criação.

Neste sentido o que sobra é um mundo constituído pelos Entes em que sua característica primordial é um mundo marcado pela ausência do pensamento, o que daria as coordenadas de um niilismo representado pelo mundo da técnica. Portanto o resgate a que Heidegger se propõe quando fala de uma essência da técnica, é o resgate de uma essência criadora que constitui e constituiu a experiência do Ser. O Ser vigora em sua própria abertura; que se daria em uma dimensão de criação do desencobrimento. O próprio desencobrir já se configura em uma abertura de um horizonte de possibilidades, de tal maneira que estas mesmas possibilidades são a abertura de um acontecimento. O acontecimento caracteriza se por uma suspensão de um enquadramento estabelecido para que o novo possa ser pensado, então o próprio acontecimento está implicado em uma dimensão criadora. Desta maneira podemos deduzir que o acontecimento é sempre um possível inesperado que ocorre na esfera do próprio Ser, cabe somente a ele a escuta que o destina a Ser o que ele é.

 

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