NOTA #8 [23/05/2017] (RJ I)

A reflexão sobre a morte no ensaio de Freud e o tanto de nosso modo de vida – aquele mesmo, com seus problemas, contradições e limitações – que tem morrido ou se encontra na iminência de morrer me recordaram destes dois versos: “Morrer apenas o estritamente necessário, sem ultrapassar a medida.// Renascer o tanto preciso a partir do resto que se preservou”. Então deixo o poema de onde foram extraídos como nota porque creio que seja pertinente.

 

 

Autotomia
Wisława Szymborska

Diante do perigo, a holotúria se divide em duas:
deixando uma sua metade ser devorada pelo mundo,
salvando-se com a outra metade.

Ela se bifurca subitamente em naufrágio e salvação,
em resgate e promessa, no que foi e no que será.

No centro do seu corpo irrompe um precipício
de duas bordas que se tornam estranhas uma à outra.

Sobre uma das bordas, a morte, sobre outra, a vida.
Aqui o desespero, ali a coragem.

Se há balança, nenhum prato pesa mais que o outro.
Se há justiça, ei-la aqui.

Morrer apenas o estritamente necessário, sem ultrapassar a medida.
Renascer o tanto preciso a partir do resto que se preservou.

Nós também sabemos nos dividir, é verdade.
Mas apenas em corpo e sussurros partidos.
Em corpo e poesia.

Aqui a garganta, do outro lado, o riso,
leve, logo abafado.

Aqui o coração pesado, ali o Não Morrer Demais,
três pequenas palavras que são as três plumas de um vôo.

O abismo não nos divide.
O abismo nos cerca.

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