NOTA #8 [24/01/2017] (RJ I)

A ideia de sobrevivência carrega pelo menos dois sentidos antitéticos. Falamos de sobrevida ou sobrevivência quando queremos relacionar a continuidade de uma vida à discontinuidade da morte de outrem: é assim que a “sobrevivência dos mais aptos” descreve a persistência de uma mutação em detrimento de outras, num processo evolutivo de seleção natural, ou que falamos de um cônjuge que sobreviveu ao outro, para dizer que o primeiro viveu mais que seu parceiro, ou mesmo que alguém é um sobrevivente de uma dada calamidade, quando sua vida excedeu as expectativas de sua própria interrupção. Em todos esses casos, o que sobrevive vive para além de uma morte, sua ou de outro, preserva e persiste quando, na verdade, um dado limite fatal deveria ou poderia ter sido imposto. Do ponto de vista biológico, portanto, a ideia de sobrevivência não tem um conteúdo próprio: mesmo o uso da expressão “survival of the fittest”, criada por Herbert Spencer, em 1864, como metáfora do processo evolutivo darwinista é derivativa, apontando para uma relação extrínsica entre o que padece e o que persiste num dado ambiente, sem que seja possível extrair a partir daí uma propriedade distintiva de certos elementos – que apenas sobrevivem – e não de outros – que vivem – quando considerados dentro de um mesmo ecossistema.
Mas a ideia de sobrevivência possui ainda um outro sentido, que se define não pela continuidade da vida, mas em oposição a essa. É o sentido que está em jogo, por exemplo, num famoso verso de Bertold Brecht, quando o poeta diz que “de agora em diante temeremos/ mais do que a morte, uma má vida”. A “má vida” de que fala Brecht não é a morte, mas também não é apenas uma vida biologicamente mal-adaptada, em oposição a uma vida que persevera em seu ambiente, nem é uma vida doente, em oposição a uma vida saudável: é antes uma existência qualitativamente apartada de algo que é próprio da vida, uma vida que pode ser até mesmo pior que a morte. 
A “má vida” nos desafia a pensar que algo pode cessar no viver, enquanto o ser vivo persiste em sua existência, repetindo dentro do intervalo entre o nascimento e a morte um processo que, há pouco, descrevia a superação desse limite mortífero. Trata-se de um verdadeiro paradoxo: vemos que o sentido filogenético da sobrevivência – persistir para além do ciclo de vida de um dado animal – re-emerge do interior do seu sentido ontogenético – persistir na vida animal para além da vida do gênero, para além daquilo que é próprio do viver. Não se trata, evidentemente, de uma reiteração da “lei biogenética” de Ernst Haeckel, que defendia que o desenvolvimento de um ser vivo percorreria as etapas morfológicas que constituíram o desenvolvimento de sua espécie. Ao invés da ideia de uma recapitulação necessária, onde a individuação de um ser vivo particular conteria a macro-história de sua própria forma individual, a ideia de sobrevivência sugere uma redução possível, pois as propriedades associadas a um percurso transindividual do vivente poderiam, em alguns casos, passar a definir a forma de vida de um ser vivo individualizado. 
O paradoxo é ainda mais notável na medida em que a ideia de sobrevivência como algo aquém da morte emergiu, antes, como um tema religioso e filosófico. Na religião, por exemplo, é em relação à imortalidade – ao invés da morte – que se define a diferença entre sobreviver e viver: meramente sobrevive aquele animal humano que se desliga da vida que continuaria após a morte, o animal humano sem transcendência. Na filosofia, a distinção entre a sobrevivência e a “vida verdadeira”  parte não mais da imortalidade da alma, mas dos próprios feitos terrestres: trata-se da questão de saber morrer. Seria possível, assim, distinguir duas posturas éticas perante à morte que dariam ensejo a duas formas da vida: a primeira posição, conservadora, assustada com sua própria finitude, reduziria sua existência à preservação de si, enquanto a segunda, heróica ou mesmo trágica, assumiria a existência de seus limites vitais, buscando superá-los através das obras e ideias. Em ambos os casos, a oposição entre vida e morte é reduplicada – o que não foi possível nas ciências da vida – para que fosse então possível dividir a existência individual em duas formas qualitativamente distintas: a vida, ligada ao além da morte individual, e a sobrevivência, a vida que é privada – seja espiritual ou eticamente – dessa ligação. 
De certa forma, a invenção do sobrenatural – seja em sua eternidade, no caso da alma, ou em sua historicidade, no caso da cultura – condiciona a inteligibilidade da sobrevivência como um limite interno à existência dos seres vivos. É impossível reconhecer uma “má vida” sem a referência a uma dimensão da vida que atravesse as gerações, os gêneros ou o gênio particular. Decorre daí uma conclusão – compatível, inclusive, com a ausência de uma ideia de sobrevivência individual na biologia – de que, enquanto todos os animais vivem, apenas o animal humano é capaz de existir aquém da vida e da morte, de ser menos que um ser vivo. 

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