NOTA #9 [01/04/2019] (RJ I)

Me parece que temos previsto bastante o fim do mundo e o mundo tem nos traído, teimando em não acabar.

Recordando de casos mais recentes, cito a PEC 241 (55), a do fim do mundo, que, aprovada, não deflagrou o fim dos tempos, e sim algo muito menos espetacular e cinematográfico: a contenção de investimentos estatais (através do teto), cujos efeitos são perceptíveis, mas cuja causa permanece invisível ao público, pela dificuldade de associação entre causa e efeito.

Mais recentemente, quanto à suposta ascensão do fascismo na figura de Bolsonaro, espalhada por nós aos quatro ventos com uma aparência de notícia de que o próprio anticristo desceria sobre terras brasileiras, falhamos novamente em nossos presságios.

Agora, com a questão da reforma da previdência, parece que podemos a falhar mais uma vez em contrapor junto ao público com nosso discurso –   bem mais ponderado, é verdade, do fim da vida (trazendo, portanto, o fim do mundo para o nível da individualidade: o fim do mundo de cada um ou o fim de um mundo, um em que nos aposentamos) sem seu merecido descanso, daqui a 20, 30, 40 anos – o discurso da necessidade incontornável de uma administração séria, circunspecta, responsável, das finanças públicas, com medidas enérgicas e radicais, imprescindíveis para resolver os problemas atuais, os problemas de hoje.

Eu me pergunto se nosso exagero dramático não contribui para o cenário de descrença parcial da opinião pública em nós. Se nossas sucessivas falhas em prever com acuidade as catástrofes (que, intimamente, parece que acreditamos ser inevitável – daí nosso apelo recorrente a ela, ao campo lexical da catástrofe, às imagens da catástrofe) não colaborariam para que nossas advertências sejam cada vez menos levadas a sério, e não sem razão. Como profetas do fim do mundo, temos falhado terrivelmente.

Mas isso não é tudo. Prever a catástrofe também nos coloca em uma posição ambivalente com relação ao futuro. Por um lado, se a previmos é porque críamos que ela fosse possível, ou melhor, que ela fosse quase certa – uma vez que se não fosse este o caso estaríamos flagrantemente em uma posição de impostura. Por outro, ainda que tenhamos crido nessa possibilidade, deveríamos desejar que ela não viesse a acontecer, que tivéssemos errado em nossos cálculos. Contudo, a partir do momento em que uma previsão é feita, para que seja valorizada a palavra presciente, é necessário que aquilo que foi antevisto se confirme, se concretize, sob pena de desmascaramento de quem errou a previsão. Assim, acaba por haver em nós uma certa satisfação em ver a merda acontecer, em parte porque a esta altura já estamos todos um pouco morbidamente fascinados por ver merda acontecendo, mas, principalmente, porque é da concretização da merda que chega a garantia de nosso próprio status como dignos de confiança enquanto analistas da situação (enquanto aqueles que fizeram estardalhaço, que arrumaram brigas políticas e romperam relações porque possuíam um saber sobre o futuro). É notório o gozo com que inúmeros de nós recebem cada nova informação das cagadas do novo governo, da lamentável situação política do país. Não, não é exatamente o fim do mundo (ainda), mas já é alguma coisa.

A ambivalência está assim posta: se as coisas ficam mornas, se o circo não pega fogo e o caos não é instaurado, somos impostores. Nossas análises da realidade são disparatadas, desajustadas, incongruentes, exageradas. Por outro lado, se a catástrofe começa a dar sinais de que vai chegar, nós, aqueles que a prevemos, podemos até mesmo estar dentre os que sofrem suas consequências, mas, em todo caso, mantemos, ainda que como prêmio de consolação, nossa dignidade.

Não é à toa que estamos numa situação de expectativa constante, ansiosos pelos próximos movimentos, contando, parece, como naquele poema conhecido de Kafávis, com a chegada dos bárbaros. Para melhor nos situar e dar conta de nossa atual impotência contra o “caos calmo” do novo governo, do déficit entre nossas antecipações da realidade e a realidade efetiva, da nossa confusão acerca dos acontecimentos atuais, a barbárie chegando, no fim das contas, poderia ser uma “espécie de solução”.

“(…)Porque, subitamente, começa um mal-estar,
e esta confusão? Como os rostos se tornaram sérios!
E porque se esvaziam tão depressa as ruas e as praças,
e todos voltam para casa tão apreensivos?

Porque a noite caiu e os Bárbaros não vieram.
E umas pessoas que chegaram da fronteira
dizem que não há lá sinal de Bárbaros.

E agora, que vai ser de nós sem os Bárbaros?
Essa gente era uma espécie de solução.”

À espera dos bárbaros,   de Constantino Kafávis

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