NOTA #9 [25/07/2019] (RJ I)

Também me incomoda bastante o argumento central de Dardot e Laval. Confesso que a primeira vez que os li – no 3º período da faculdade – achei bem bacana: de fato, é uma explicação que “cola” muito bem à primeira vista. No entanto, acredito que os autores repetem um comportamento que, pelo pouco conhecimento que tenho, também está presente em demais obras foucaltianas – a saber, não identificar “externalidades” que possam ter contribuído para a emergência e consolidação da “subjetividade neoliberal”. Isso me incomoda um pouco, rs. Porque aí fica parecendo que a governamentalidade neoliberal nasceu quase magicamente e, por algum motivo misterioso, “colou”, “pegou” e agora geral reproduz essa racionalidade. Além disso, assim como outros trabalhos foucaultianos aos quais tive contato, Dardot e Laval também acabam caindo numa espécie de reificação da dimensão discursiva (ainda que eu reconheça que a categoria discurso, para os foucaultianos, tenha uma abrangência bem maior do que simplesmente a dimensão da fala, do que se diz) – ela aparece como algo muito mais importante e predominante do que as relações sociais de produção, a base material, etc. Não me lembro em qual texto do Gabriel eu vi isso (talvez lá na aquela entrevista que ele deu para o IHU), mas o grande perigo dessa reificação é o fato de que a radicalização desse raciocínio nos leva a uma situação na qual “falar que vai fazer” é confundido com “fazer”. Isso não é parte da nossa confusão atual com as movimentações do governo Bolsonaro? É claro que as atrocidades que esse cara propaga têm efeitos. No entanto, a nível tático, acredito que seja cada vez mais importante nos esforçamos para distinguir o que ele fala que vai fazer e o que, de fato, ele faz. Ainda que as duas dimensões muitas vezes deem “match” (como, por exemplo, o conhecido posicionamento dele a favor de privatizações e as propostas que estão surgindo na Câmara em relação a isso, etc.), acredito que essa seja uma atitude necessária (até mesmo para a gente não se desesperar, rs).

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