Nota CEII SP [02/07/2019]

(…) Quando lemos um pronunciamento “ideológico” abstrato, sabemos muito bem que não é desse modo que  “pessoas de verdade” o vivenciam: para passar das proposições abstratas para a “vida real”, é preciso acrescentar às proposições abstratas a densidade insondável de um contexto de vida no mundo – e a ideologia não se constitui de proposições abstratas em si mesmas, porque ela é antes essa própria textura de vida no mundo que “esquematiza” as afirmações, tornando-as “vivíveis”. Tomemos como exemplo a ideologia militar: ela só se torna “vivível” contra o pano de fundo das regras e dos rituais obscenos não escritos (canções de marcha, insubordinações, insinuações de natureza sexual…) no qual se insere. E é por isso que, se existe experiência ideológica em estado puro, em nível zero, é no momento em que adotamos uma atitude de distanciamento sábio e irônico e rimos das tolices nas quais estamos dispostos a acreditar: nesse momento de riso libertador, quando olhamos de cima o absurdo de nossa fé, somos puros sujeitos de ideologia, quando a ideologia exerce seu domínio mais profundo sobre nós. É por isso, por exemplo, que para os que quiserem observar a ideologia contemporânea em ação basta assistir aos programas de viagem de Michael Palin, transmitidos pela BBC: a atitude subjacente de distanciamento irônico e complacente diante de costumes diferentes, que se deleita com as peculiaridades locais e ao mesmo tempo filtra os dados verdadeiramente traumáticos, é o racismo pós-moderno em seu aspecto mais essencial. (Quando vemos cenas de crianças subnutridas na África, apelando para que se faça alguma coisa para ajudá-las, a mensagem ideológica subjacente é algo como: “Não pense, não politize, esqueça as verdadeiras causas da pobreza, apenas aja, dê dinheiro, assim você não terá de pensar!”(…) (Zizek, S. Vivendo no fim dos tempos, 2012, p. 19)

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