Nota CEII SP [05/04/2018]

Pensando em filmes para falar de dois pontos diferentes acerca da catástrofe. Ou porque filmes de zumbi parecem ser objetos culturais mais interessantes do que Mad Max para falar da catástrofe. Basicamente porque não estamos lidando com a metáfora óbvia e incisiva de catástrofe que o remake de George Miller, Mad Max: Fury Road (2015) sugere; mas sim, de um aspecto um tanto mais ambíguo da catástrofe, trata­-se da compreensão do curioso traço litorâneo que denotamos desta distopia – ­ pois essas delimitações não são marcas claras, mas sim sua opacidade – não se sabe tão bem onde finda a terra e inicia o mar, embora saibamos que ali há um encontro e uma separação amalgamadas. E o filme que nos auxilia melhor para ilustrar este ponto de catástrofe, é o brilhante filme de Edgar Wright de 2004, o “Shaun of the Dead” escrito por Simon Pegg, a “paródia” do clássico do horror de George Romero de 1978 “Dawn of the Dead” ou Madrugada dos Mortos. Se no filme original, vemos o elemento distópico das funções sociais do Estado reduzidas ao seu mínimo ou ínfimo, completamente incapazes de darem conta desta nova realidade que se configura, obrigando os personagens sobreviventes a buscarem por si próprios novas formas de existir, na paródia encontramos uma cena memorável em que Shaun, o personagem principal, acorda e segue realizando suas tarefas rotineiras, segue seu ritual matinal em direção ao trabalho, passa para buscar um sorvete na “loja de conveniências” como faz em todas as manhãs ­ – sem, em momento algum, se dar conta de que a hecatombe já ocorrera. Aqui, nesta cena, enxergamos a construção de um traço anamórfico desta catástrofe, temos o segundo plano, borrado e já completamente reconfigurado pela devastação dos mortos­vivos, enquanto o personagem de Shaun segue, quase como se já agisse sabendo exatamente que a catástrofe já havia ocorrido, como se nada houvesse mudado, até mesmo em momentos satiricamente curiosos, onde a nova configuração social invade sua realidade e os zumbis se apresentam diante de seus olhos, o herói apenas segue sua rotina rumo ao trabalho. Esta é a sutileza que possivelmente melhor traduz a complexa composição da realidade catastrófica da atualidade.

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