Nota CEII SP [05/07/2018]

“As elaborações de Laclau são precisas em mais de um ponto. Elas mostram como a perspectiva freudiana e seus desdobramentos permitem compreender, com clareza, as dinâmicas identificatórias no campo político não apenas como regressivas, mas também como constitutivas da própria dinâmica transformadora das lutas sociais. Não há política democrática sem o reconhecimento de dinâmicas constituídas no ponto de não-sobreposição entre direito e demandas sociais, entre legalidade e legitimidade. Não há política democrática sem um excesso de antagonismo em relação às possibilidade previamente decididas pela estrutura institucional, e é isto que a experiência populista nos mostra, embora Slavoj Zizek lembre com propriedade que o populismo não é o único modo de existência do excesso de antagonismo sobre a estrutura democrático-institucional. De toda forma, Laclau nos permite compreender como a reflexão política freudiana pode nos ajudar a sublinhar a complexidade da relação anti-institucional. A irredutibilidade da posição da liderança implica reconhecimento de um lugar, não completamente enquadrado do ponto de vista institucional, marcado pela presença da natureza. Tal lugar pode tanto impedir que a política se transforme na gestão administrativa das possibilidades previamente determinadas e constrangidas pelo ordenamento jurídico atual quanto ser o espaço aberto para a recorrência contínua de figuras de autoridade e liderança que aparecem periodicamente se alimentar de fantasias arcaicas de segurança, proteção e de medo. Esta ambivalência lhe é constitutiva, pois ela é, na verdade, a própria ambivalência da incorporação em política.”

HOFFMANN, C. BIRMAN, J. (Org). Psicanálise e Política: uma nova leitura do populismo. São Paulo: Instituto Langage, 2018, pp. 58-59.

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