NOTA CEII SP [06/04/2017]

(Quase) Proposição 8 de Junho

Três níveis de engajamento e pensamento via instituição CEII – Uma defesa de uma forma organizativa de escuta e transmissão

Penso que existem, ao menos, três níveis de possíveis de nos engajarmos, enquanto instituição CEII, com as tarefas da militância. Acredito que a relevância de fazer esta distinção mora na possibilidade de instrumentalizarmos a proposta de tornar indistintos pensamento e militância.

A primeira e mais evidente forma de engajamento é o exercício de fazer funcionar um espaço de engajamento coletivo que pretende tanto estudar quanto militar. Nesse primeiro nível podemos pensar que as tarefas necessárias para termos um lugar onde fazer as reuniões é um engajamento militante, já que trata de questões concretas sobre como garantir condições boas para que possamos nos reunir. Em movimentos como o MTST isso fica claro com a máxima “numa ocupação ninguém passa fome”. Pensar nas tarefas necessárias para se montar e fazer funcionar uma cozinha nas condições mais adversas possíveis nos põem necessariamente em contato com questões que abarcam as dimensões prática, táctica, estratégica, política, ética e filosófica, mesmo que não nos detenhamos a pesar todas estas dimensões no momento da nossa ação. Ao menos podemos dizer que as escolhas necessariamente se tem efeitos de escolha sobre todas estas dimensões. Por isso pensar em tarefas práticas é pensar, como aponta Zizek, nas condições práticas postas para podermos realizar – e consequentemente pensar – algo. O questionamento dessas condições é o que acredito que podemos tratar como a crítica da ideologia que o CEII se propõe. Nesse “nível de engajamento” temos uma relação propriamente experencial e pode ser circunscrito a isso que chamamos de disciplina mínima, ou seja, aquele engajamento necessário para que a estrutura mínima do CEII – a célula – exista.

Outro nível de engajamento institucional do CEII diz respeito às atividades empreendidas para além da célula. Nela podemos incluir tanto as atividades que membros do CEII empreendem fora da estrutura organizativa do círculo quanto empreendidas por membros do CEII dentro da estrutura do círculo. Hoje temo como exemplo tanto o Escuta Luta e Organizando a Vida, quanto o Subconjunto de Estudos de Hegel e o curso de introdução sobre a obra do Zizek. Estes são engajamentos que tentam se efetivar organizativamente submetendo-se aos princípios postos em prática dentro do CEII: a indiferença quanto a critérios de identidade, a prática da igualdade, o uso produtivo da mestria, etc. Mas já nesse nível de engajamento – e este é o aspecto central do meu argumento –  podemos traçar uma diferença sobre o primeiro. Neste segundo nível contamos em maior grau com a transmissão dos problemas e elaborações produzidos nesta experiência para fazermos da experiência concreta de engajamento questões generalizáveis para todos os participantes do círculo, ou seja, fica mais visivelmente oportuna a convocação categórica de fazer de uma falta de saber individual uma falta de saber coletiva. Diferentemente do primeiro nível, onde os participantes das células estão mais ou menos todos postos diante dos mesmos problemas, no exercício dos subconjuntos e outra tarefas relacionadas ao CEII, as questões precisam ser transmitidas para os outros membros. Se as notas são o recurso básico (no sentido de mínimo) para que tentemos fazer a transmissão de nossas questões quando do engajamento na célula – um engajamento que mais ou menos já compartilhamos com que e para quem pretendemos transmitir nossas questões – me parece que esse outro tipo de engajamento –  que se faz mais separado daqueles para quem pretendemos transmitir nossas questões – pode exigir e oportunizar um outro tipo de forma organizativa para a transmissão para além (e não substituindo) das notas.

Ainda nesse mesmo segundo nível podemos incluir o engajamento dos participantes em instituições (e por isso formas organizativas) diversas. A experiência produzida no engajamento dos membros nestas instituições (espera-se) produz estranhamento em relação à prática organizativa do círculo. Desse estranhamento que espera-se ser produzido temos um campo de elaborações que acontecem com ou sem a coletivização organizada. O que temos hoje é a aposta de que a notas e a mediação do mais-um sejam suficientes para fazer coletivizar a falta de saber que o CEII pode produzir pelo engajamento sob a disciplina específica da sua forma organizativa. Acredito que podemos encontrar melhores resultados se buscarmos estabelecer mecanismos de coleta regular e isntitucionalizada de tais conteúdos como disciplina mais do que mínima. Nomeio desta maneira por entender que condicionar o pertencimento ao CEII à exposição de suas questões seguramente produzirá mais desengajamento do que compartilhamento do pensamento. É evidente que caminho aqui para uma espécie de junção entre a proposta do Subconjunto de Prática Teórica e uma espécie de Escuta Luta ” interno”. Se no SPT cada um dos participantes trás para o grupo o caminho de sua pesquisa, nesta espécie de dispositivo intra-célula, cada participante traria o andar de suas questões sobre o seu próprio engajamento. Entendo que tal dispositivo pode ser ativado de acordo com o interesse daquele que deseja trazer para os outros participantes os impasses tanto das dificuldades práticas quanto da história do seu fazer político. Ao mesmo tempo, não deixo de pensar que para além da disciplina das notas – essa, mais frequente – tal dispositivo pode ser uma disciplina mais esparsa, mas também obrigatória; quem sabe até sem uma temporalidade estabelecida. Penso isso porque penso que o compromisso que se faz com o círculo seja também um compromisso com a transmissão das suas próprias questões, produzidas na singularidade da experiência de cada um e que andem no sentido de tornarem-se diferentes de si mesmo e iguais a todos os outros.

O terceiro nível de engajamento tem a ver com a prática dos CEII Convida. Trazer pessoas de fora do CEII para falarem sobre as dificuldades que encontram na sua prática militantes, em algum grau, carrega a mesma aposta de tornar a falta de saber individual, uma falta de saber coletiva. É um recurso bastante interessante acredito que tem ainda mais interessante quando submetido às questões que circulam no CEII, no sentido de militantes externos serem convidados a falarem a partir de questões produzidas no encontro com problemas mais um menos coletivizados no círculo.

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