Nota CEII SP [09/08/2018]

O povo é uma entidade que paira sobre os movimentos identificados à Esquerda do esquema metafórico-espacial da política, a geopolítica partidária da Esquerda e da Direita, a categoria zumbi – no sentido que nos apresenta o sociólogo alemão Ulrich Beck – que vem assombrar o imaginário social. Essa imagem do zumbi que nos persegue, que vem se arrastando decrépito enquanto corremos agilmente, mas que de alguma forma nos alcança, nos cerca e nos contamina. Mas fujo do ponto.

O povo é um nó (Górdio) com o qual os grupos identificados à Esquerda precisam lidar. Em seu “Quem é o Povo?”, Fredrich Müller refere-se a este espectro evocado convenientemente quando se quer legitimar as mais variadas ações do Estado e dos grupos políticos. Todos agem com o povo, pelo povo, em nome do povo etc. Alguns são o povo, outros são pais e mães do povo, representam, salvam, alimentam, defendem o povo. Sem qualquer contradição com a história brasileira, na qual os grandes movimentos políticos da vida nacional prescindiram do povo, como nos diz Florestan, com uma democratização por cima entre as elites nacionais.

O tema do povo é requentado periodicamente, e por lideranças de um vasto espectro ideológico. Pinçando entre os possíveis exemplo, a referência recente aos 99% parece retomar este discurso de uma legitimidade pela maioria. É claro, contudo, que a constituição destes 99% varia ao gosto do freguês, dando verniz de legitimidade tanto ao Brexit e ao Make America Great Again, quanto as repetidas primaveras e discursos pretensamente anti-capitalistas. Se o povo era a ancoragem da política tradicional de partidos e dos Poderes da República, ele vem no rebranding dos 99% sob a sintomática fetichização dos números – os 99% como financeirização do povo: o significante povo redesenhado como porcentagem calculada a partir de renda, patrimônio e poder econômico. Na transição do recorte econômico para a ação política, contudo, o fetiche dos 99% não suporta o peso do povo. E neste sentido, apesar da intensa disputa pela titularidade dos 99%, tenho comigo grandes dúvidas sobre o que os compõe, e quanto os grupos identificados à Esquerda efetivamente representam, agem com ou falam por esses 99%. O quanto este movimento que se apresenta antissistema, anticíclico e outsider efetivamente se encaixa nas expectativas teóricas, ideológicas e políticas da dita Esquerda.

Mas o fato me parece que permanece é: como povo ou 99%, os movimentos identificados à Esquerda continuamente evocam as massas para se conferir legitimidade democrática (e quiçá revolucionária) e lugar de verdade. Mas é claro que isto provoca crises convulsivas em organizações que se dizem populares, uma vez que o imaginário popular se confronta com o empirismo da militância. As contradições, então, no lugar de temperar, salgam e ficam difíceis de engolir (será que o povo é o sal da terra?). Neste quadro, encontramos o povo usado como massa de manobra para legitimar ações institucionais e de movimentos sociais; encontramos o povo anunciado como o real da ação política, como a utopia a ser alcançada, o povo que participa sem participar – uma imagem em menor escala da democracia representativa formal – ou o povo tutelado, a ser salvo, iluminado e emancipado pelos detentores da verdade revolucionária (ainda que o povo seja o agente revolucionário por excelência) que prometem welfare State e social democracia.

Deste preâmbulo todo, voltamos à pergunta inicial: onde fica o povo na/ para a chamada Esquerda? A primeira coisa que me parece clara é que o povo é uma outra coisa, uma outra história. O povo não é a Esquerda, é algo que a dita Esquerda busca, defende, salva, quer se aproximar, quer ir de encontro, quer entender, quer emancipar, quer integrar aos seus quadros etc. Em resumo, o povo é um desejo da Esquerda, é em verdade um objeto-a inalcançável, em torno do qual a Esquerda roda e roda, sob o indissolúvel fetiche de que é a personificação dos 99%. Também me parece certo que pensar no povo é não pensar. Em reuniões do partido, por exemplo, o povo é amiúde evocado para silenciar o pensamento, porque o pensamento é percebido com anti-povo: pensar é elitista, é artificial, é coisa de esquerda universitária, dissociado da realidade. O real está na comunidade, no povo e enquanto o partido não parar de pensar e colocar a mão na massa, ou melhor seria colocar a mão para enxugar o gelo, nunca será esquerda de verdade – povo: objeto-a, o resto que sobra na constituição da dita Esquerda contemporânea, o buraco em torno do qual ela gira. Esta falta constitutiva (da ideia que fazem) de povo na Esquerda contemporânea, que poderia fazê-la se movimentar, parece em verdade provocar uma paralisia, ou pelo menos uma pseudoatividade como diz Žižek, com o impulso incontrolável pelo consumo (da ideia que fazem) de povo e que leva, ao cabo, ao consumo de si mesmo.

Por falar em pseudoatividade, Žižek nos fala em seu “Como Ler Lacan” que mais perigoso do que a passividade é a ânsia incontrolável por fazer algo. A ânsia incontrolável por mudança e transformação, enquanto o indivíduo se torna “freneticamente ativo para evitar que a coisa real aconteça”, ele busca mudança para que nada mude. E aí, talvez de forma contra-intuitiva e sob pena (capital) de soar elitista, talvez possamos dar uma resposta diferente à falta de povo na autoproclamada Esquerda contemporânea. Isto porque, quando se fala na falta (da ideia que fazem) de povo, a resposta imediata é “bora atrás do povo” ou “coloca mais povo aí na parada”. Uma ideia que parece boa, mas que muitas vezes é posta em xeque por um povo com ideais empreendedores, conservadores, homofóbicos-machistas-linchadores e patriarcais, defensores da ditadura e da família tradicional etc., ou que simplesmente não tem tempo ou disposição para entrar nas fileiras do partido, ou que não vê significado no pretexto revolucionário, quando o que ele quer mesmo é que alguém enxugue o gelo com ele. E o que fazer com isso? Aceitar! Dirão alguns. Afinal, rejeitar esta realidade do povo seria elitista, alienado, coisa de gente que mora na Zona Sul, imperialista e opressor negando a experiência e querendo falar em nome do povo.

Minha resposta que continua sob pena (capital) de soar como tudo isto, é que os grupos que se identificam à Esquerda talvez devessem assumir e sustentar que não são o povo, que não falam em nome dele e que não são a personificação dos 99%. Mais do que isso eu, pessoalmente, que estou cada vez menos identificado com os partidos e com este walking dead que a é dicotomia Esquerda-Direita, não acredito que precisamos aceitar e assumir uma política de tolerância com toda manifestação associada com a ideia que fazemos de povo, apenas para não sermos tachados de elitistas e universitários. Afinal, o que há de tão terrível em ser universitário, afinal o que há de tão herético em se fazer uma política do pensamento? Porque é esta a oposição: povo contra intelectuais. Porque, afinal de contas, o povo não precisa de pensamento, não é? Precisa se ação. Este é um pensamento perigosíssimo, porque por mais que se negue o pensamento, sua foraclusão pela chamada Esquerda, não o retira da realidade social apenas da realidade imagética desta Esquerda. Se o povo e esta Esquerda não pensa (porque está engajada em agir), não resta dúvida de que alguém pensará em seu lugar.

E as mais tresloucadas manifestações (ações e pensamentos) do povo podem e devem ser colocadas em questão, uma vez que tenhamos clareza (inclusive teórica) do que somos como Esquerda. E o risco do multiculturalismo e da política da tolerância oblitera a universalidade da luta política, inclusive para relativizar e descaracterizar os fundamentos políticos que, historicamente, formaram a Esquerda, abrindo espaço para híbridos curiosos como o identitarismo, o neoliberalismo progressista ao qual se refere Nancy Fraser, o trabalhismo que se vangloria de dar lucros inéditos aos bancos e ao messianismo – seja este populista como o de Lula, seja o messianismo delirante do Cabo Daciolo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *