NOTA CEII SP #1 [08/02/2018]

1. Referências bibliográficas citadas/sugeridas:

a. ŽIŽEK, S. Como Marx Inventou o Sintoma In.___. (org.) Um Mapa da Ideologia. Rio de Janeiro: Contraponto, pp. 297-331, 1996.

b. HAN, B. Sociedade do cansaço. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015.

c. SALECL, R. Sobre a felicidade: ansiedade e consumo na era do hipercapitalismo. 2 ed. São Paulo: Alameda, 2012.

2. Sobre Lula/PT e a ideia de “corpo transferencial”: 

Esta discussão, extraída do livro de Ab’Saber levantou uma questão que me pareceu interessante para pensar a reação de (boa) parte da Esquerda, hoje, em relação à condenação Lula e seu eventual impedido para concorrer à Presidência. Ab’Saber, ao discutir as consequências da “crise do mensalão de junho de 2005”, refere-se ao apequenamento do PT em relação à figura de Lula, e como este assume um lugar de corpo transferencial – de forma amorosa – que permite ao partido chegar ao Poder.

A ideia de corpo transferencial e amoroso político nos remete à transferência amorosa em Freud e seu “observações sobre o amor transferencial” (1915). Segundo o Dicionário de Psicanálise de Roudinesco e Plon¹, a transferência em Freud é o processo pelo qual o analisando, na relação analítica, sobrepõe à figura do analista seus próprios desejos inconscientes. Como se o analista personificasse o desejo do analisando, e esta personificação pode se dar como forma de deslocamento ou investimento amoroso, como no caso da análise de Dora que torna Freud objeto de seus arroubos amorosos.

Ab’Saber, ao falar em corpo transferencial amoroso na esfera política, faria referência à transferência enquanto deslocamento de investimento psíquico, e sobreposição entre desejos e a figura de uma liderança carismática, que se manifesta na “grande e muito interessada fidelidade geral ao grande líder”²? É esta nossa interpretação.

Se correta nossa leitura, partindo desta homologia, poderíamos refletir sobre as reações atuais quanto ao possível (e provável) impedimento à candidatura de Lula para Presidência nas eleições de 2018, depois de confirmada sua condenação pelo TRF-4. A reação de militantes petistas e de (boa) parte da Esquerda, em geral, é de equivalência entre defender Lula e defender o próprio ideal de democracia, no qual acreditam. Como se impedir Lula (cassar sua candidatura) fosse equivalente a impedir o próprio exercício da democracia liberal burguesa, na qual nos inserimos. Eleição sem Lula é golpe, gritavam os petistas até pouco tempo. O slogan político evoca o fantasma do Golpe militar de 1964 – o Golpe é evocado pela Esquerda nacional, como o fantasma do Comunismo, pela Direita – e o impedimento de Lula seria uma espécie de AI-2, que em 1965 cassou a maior parte dos partidos, instituindo um bipartidarismo de fachada no Brasil.

Contudo, não estamos diante de um novo AI-2. Não houve uma cassação geral de partidos, e sequer o Partido dos Trabalhadores está impedido de concorrer nas eleições de 2018. Contudo, como Ab’Saber disse, desde 2005, o PT é “imensamente menor do que Lula” e, sem Lula, as chances do PT na corrida eleitoral caem drasticamente. Não colocamos em questão se isto resulta ou não de uma ação estratégica coordenada entre a CIA, a Globo, a FIESP e assim por diante. Mas isso nos faz refletir sobre a reação da militância: parece-nos certo que, por parte da direção do PT, é estratégico e consciente a narrativa do Golpe (seja ela verdadeira ou não). Por parte da militância, contudo, acreditamos que haja um elemento inconsciente de processo transferencial: não apenas, conscientemente, percebe-se que interditar a candidatura de Lula é um golpe duro conta o Partido, mas inconscientemente há um descolamento de investimento psíquico, uma transferência que deposita o desejo sobre a figura particular de Lula, personificando a própria imagem da democracia como ideal de realização política, que atenuaria o angustiante contato com o Real da política brasileira, uma luta para não confrontar o Real da política³. Isto é, busca-se recolocar a máscara sobre a face do Real, lembrando de Badiou. Em última instância, a narrativa do golpe age como fetiche, “a personificação da mentira que nos permite sustentar a verdade insuportável”? sobre a política nacional, sobre a atuação dos partidos políticos (e do PT) e os limites de governabilidade dos indivíduos sobre estas dinâmicas institucionais o quê, no limite, diz sobre a falta de controle sobre suas próprias vidas e, na Contemporaneidade, este é o Real inaceitável: mais liberdade não significa necessariamente mais autonomia?, “e esta autoconfrontação com nosso real descontrole sobre nossas biografias é traumática”?.

 

À medida que o PT compromete sua narrativa ampliando-a ad absurdum, voltando a interagir e se associar sem pudores com os mesmos grupos que teriam organizado o Golpe, agindo neste “estado de exceção pós-golpe” e reforçando a normalidade institucional e assim por diante, mas se vai percebendo sua fragilidade e incoerência. Sabe-se “muito bem da falsidade, tem-se plena ciência de um determinado interesse oculto por trás de uma universalidade ideológica, mas, ainda assim, não se renuncia”? às ideias de que defender Lula é defender a democracia e de que eleição sem Lula é Golpe. Tem-se plena noção de que os arbítrios do Estado, a violência contra as populações indígenas, as reformas neoliberais, a violência repressiva da polícia, o exército nas favelas, a repressão e criminalização dos movimentos sociais, a seletividade do Poder Judiciário, a podridão do Legislativo sobre o qual o lulismo foi erigido, e assim por diante, já eram o modo normal de funcionamento dos Poderes muito antes do impeachment de Dilma Rousseff. Ainda assim, transfere-se para Lula a expectativa de retornar a uma normalidade política que nunca existiu, “um universo político ascético”, para usar a expressão de Laclau?, que nunca houve no Brasil, ou em parte alguma. Sabe-se disso, o militante petista ou de Esquerda não é um pensador hegeliano, “ele não concebe o conteúdo particular como resultado de um movimento autônomo da Idéia universal”?, eles “sabem muito bem como as coisas realmente são, mas continuam a agir como se não o soubessem” (idem, p. 316).

Esta é uma leitura que, acredito, seria interessante explorar nos debates do CEII.

1.

2. Esta citação direta é do próprio Ab’Saber, contudo a impressão na versão digital do livro não traz página.

3. BADIOU, A. O Século. Aparecida, SP: Idéias & Letras, 2007.

4. ŽIŽEK, S. Primeiro como tragédia, depois como farsa. São Paulo: Boitempo, 2011., p. 62.

5. BECK, Ulrich; BECK-GERNSHEIM, Elisabeth. Individualization: Institutionalized Individualism and its Social and Political Consequences. London: Sage Publications, 2002.

BECK, Ulrich; BECK-GERNSHEIM, Elisabeth. O Caos Totalmente Normal do Amor. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2017.

6. LEÃO, T. Loucura, psiquiatria e sociedade: o campo da saúde mental coletiva e o processo de individualização no Brasil. Tese apresentada para a obtenção do título de doutor. Universidade de São Paulo, São Paulo, 2018.

7. ŽIŽEK, Slavoj. Como Marx Inventou o Sintoma In. . (org.) Um Mapa da Ideologia. Rio de Janeiro: Contraponto, pp. 297-331, 1996, p. 313.

8. LACLAU, E. A razão populista. São Paulo: Três Estrelas, 2013, p. 56.

9. Žižek, Op. Cit, 1996, p. 315.

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