NOTA CEII SP #1 [12/04/2018]

O que se passa com as recentes publicações de Tales Ab’Saber que parecem contrariar frontalmente (quase) tudo que ele escreveu sobre Lula em seu Lulismo: carisma pop e anticrítica[1]? Sobre isto, mais uma vez, retomo o conceito de fetiche em Žižek (2016) [2]e resgato uma anedota dele sobre um padre católico que, quando questionado sobre sua fé na infalibilidade do Papa, respondia:

Nós católicos, ao menos, acreditamos na infalibilidade de uma única pessoa; a democracia não confia na ideia muito mais arriscada de que a maioria das pessoas, milhões de pessoas, são infalíveis? (Žižek, 2016, p. 355, sic.)

Neste sentido, parece haver uma renegação fetichista na relação com a Democracia e o povo: sabemos muito bem que a Democracia é controlada por grupos de poder econômico-político, que as instituições (notadamente no Brasil) atuam de forma clientelista em um Estado patrimonialista, seletiva e, ao mesmo tempo, burocraticamente. Sabemos muito bem que o povo (a maioria democrática) está muito longe de ser infalível: já o sabíamos desde que Hitler é eleito, revimos isto com a eleição de Trump (que vence conforme as regras democráticas do sistema eleitoral estadunidense), vemos no Brasil com eleições proporcionais que favorecem pessoas como Bolsonaro, Feliciano ou Tiririca como o mais bem votado deputado de São Paulo. Sabemos disso tudo, mas agimos como se a democracia fosse a grande resposta, como se a participação popular, a figura fictícia do povofosse a resposta definitiva para os impasses da política. Aceitamos a máscara democrática como real democracia e buscamos na figura do Povoo legitimador supremo de nossa farsa democrática.

[1]AB’SABER, T. Lulismo: carisma pop e anticrítica. São Paulo: Hedra, 2016.

[2]Žižek, S. O sujeito incômodo: o centro ausente da ontologia política. São Paulo: Boitempo, 2016.

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