NOTA CEII SP #1 [15/02/2018]

Considerando as discussões no encontro do dia 15/2, gostaria de colocar a seguinte provocação: É possível imaginar um pensamento que não parta de uma posição da realidade? Até que ponto nosso pensamento está limitado por um pragmatismo e pela exigência de agir, responder, propor e assim por diante? O pensamento que tem a ação como pressuposto e limites não pode ser entendido como pensamento livre, mas antes subordinado ao imperativo contemporâneo de ação – que por sua vez pode dissimular um agir para não pensar, um agir para que nada mude. Uma falsa atividade para referir à formulação de Žižek (2010, p. 36): “as pessoas não agem somente para mudar alguma coisa, elas podem agir também para impedir que alguma coisa aconteça”¹. O perigo do constrangimento em nome de soluções e propostas, é que caiamos neste imperativo de (falsa) atividade, uma paixão pelo real como fuga ao enfrentamento do Real (Žižek, 2003)². Então sob críticas de utopista, de discurso vazio ou não propositivo, de exigência que se encare o real das imposições econômicas e da produção, pode estar a falsa noção de que o problema da Esquerda é não ter o pé no chão, é um utopismo sonhador e não realista. Recorrendo, novamente, a Žižek (apud Laclau, 2013, p. 330)³: “Essa justificada rejeição da plenitude da sociedade pós-revolucionária não justifica, entretanto, a conclusão de que temos de renunciar a qualquer projeto de uma transformação social global e nos limitarmos a problemas parciais que devem ser resolvidos”.

Neste sentido a provocação: é possível pensar a possibilidade de um pensamento não limitado pelas fronteiras do pragmatismo, da proposição de soluções práticas e da imposição do real? E aqui evoco a noção de realidade de Badiou (2017, p. 7-8), quando este diz que “As realidades são impositivas e formam uma espécie de lei, da qual é insensato querer escapar (…) a ponto de não se poder imaginar uma ação coletiva racional cujo ponto de partida subjetivo não seja aceitar esta imposição”. E não vou tão longe, a ponto de pensar nas condições de ação política, mas proponho pensar um momento antes, um passo atrás: a possibilidade ou condições de imaginar um pensamento, cujo ponto de partida subjetivo não seja aceitar esta imposição da realidade.

E por que me parece tão importante esta questão? Não se trata apenas do bom senso, segundo o qual é prudente e necessário (tentar) entender sobre o que se age antes de agir. Ou seja, não é apenas por entender o pensamento como pressuposto ou momento que antecede a ação política. Antes, uma dialética entre pensamento e ação, em que a ação molda o pensamento e o pensamento a ação, reciprocamente. Sobre essa dialética da ação-pensamento político, Laclau (2013, p. 125) ao comentar os motins campesinos franceses afirma: “O insucesso desses motins, em comparação com aqueles que ocorreram durante a Revolução Francesa, é explicado (…) porque não havia nenhum discurso nacional contrário ao status quo no qual o campesinato pudesse inscrever suas demandas”.

Apesar das discordâncias que temos com o autor, encontramos em Jessé de Souza (2017, p. 25) uma questão interessante: é “fundamental perceber como as ideias são criadas e qual o seu papel na forma como a sociedade vai definir seu caminho específico (…) os indivíduos e as classes sociais vão definir sua ação prática, quer tenham ou não consciência disso, a partir desse mesmo repositório de ideias”. Jessé de Souza está formulando suas críticas ao pensamento sociológico que, no seu entendimento, constrói o referencial teórico por trás do golpe e da (aceitação da) Operação Lava-Jato. Isto não vem ao caso, aqui, mas é interessante ficarmos com esta ideia presente nas duas citações acima: como o pensamento, que pode-deve ser construído sobre bases dialéticas, é necessário para (1) inscrição e definição da ação política e cotidiana/particular, para (2) interpretação e (des)entendimento com relação à realidade sobre na qual se atua (sem que se precise estar limitado a esta realidade) e (3) significação desta ação e realidade política e cotidiana/particular.

Assim, retomando a provocação, é possível um pensamento não limitado à imposição da realidade, ao fetiche da economia e dos números, à paixão pelo real do pragmatismo, à fragmentação dos problemas parciais a serem resolvidos e ao imperativo de agir e de ser propositivo (antes mesmo de ser reflexivo)? Nossa hipótese é que sim, é possível. Mas acreditamos que é uma provocação a ser melhor explorada pelo Círculo.

1 Como ler Lacan. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.

2 Bem-Vindo ao Deserto do Real!. São Paulo: Boitempo, 2003.

3 LACLAU, E. A razão populista. São Paulo: Três Estrelas, 2013.

4 Em busca do real perdido. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2017.

5 A elite do atraso: da escravidão à lava-jato. Rio de Janeiro: Leya, 2017.

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