Nota CEII SP [11/10/2018]

Ainda é possível constituir “laço de classe”, a partir da condição de classe? Gostaria de propor esta questão sem que, antes mesmo de uma discussão possível, fosse esta tachada de puramente polemica, neoliberal, pós-moderna e assim por diante. Essa pergunta é fundamental pois pressuposto das possibilidades de militância, luta política e transformação social estrutural.

Até o terceiro quarto do século passado, parece que não havia dúvidas sobre a formação subjetiva pela classe. Tínhamos o trabalho formal, sustentado na família nuclear e na divisão de papeis sociais de gênero, costurando gerações seguidas em uma costura social e cultural de classe. Éramos, sem maior dúvida, uma sociedade do trabalho ou do emprego: a sociedade e a participação social se definiam, fundamentalmente, pela participação no trabalho produtivo, que era também instrumento de subjetivação e socialização dos indivíduos e grupos, determinando seu lugar na estrutura social. Esta é estrutura básica das sociedades moderno-industriais.

Mas o que acontece quando passamos para um modernidade não-industrial, para um Capitalismo financeirizado? O que acontece com o sujeito? Não é possível compreender que o indivíduo produz-se ao produzir, isto é, que (1) a forma Capital determina as formas de subjetivação, (2) o Capitalismo passou por modificações estruturais, mas (3) o sujeito permanece o mesmo. Žižek (2016, p. 359) faz um questionamento similar aos teóricos da “Sociedade de Risco” (Ulrich Beck e Anthony Giddes): o problema dos teóricos da Modernidade contemporânea, segundo Žižek, é que apesar de insistirem em apontar transformações sociais radicais, “eles deixam intacto o modo fundamental de ‘subjetividade’ do sujeito”.

Colocar em questão a possibilidade de transformação a partir do laço de classe, ou mesmo a possibilidade de fazer laço de classe, não é sob hipótese alguma, negar a luta de classes, a estrutura de classe, ou a exploração como violência fundamental do Capitalismo. Mas propor pensarmos qual o papel da classe na formação subjetiva dos indivíduos, na organização dos grupos e, em última instancia, na mobilização política em torno de ideais de mudança ou transformação social (quiçá revolucionária). Se pensarmos que há uma historicidade na formação da subjetividade – e não há aqui nenhuma tentativa de descobrir uma verdade oculta ou coisa que o valha –, como o velho Marx já dizia que o sujeito se produz ao produzir, se a forma trabalho-produção muda historicamente, também historicamente muda este sujeito produzido pelas condições matérias de vida.

Agora sim, evitando ser polemico, uma conversa maior sobre o que é a sociedade contemporânea, caso a classe não esteja necessariamente no centro da constituição política e subjetiva, exigiria debate, estudo e reflexão que não cabem na nota.

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