Nota CEII SP [14/06/2018]

Sobre psicanálise e suicídio:
“O que se evidencia com o exame das proposições que dão sustentação às práticas preventivas concebidas pela OMS em seu projeto para a prevenção do suicídio (SUPRE), o qual tem dimensões globais, é que o suicídio é um ato não racional e não voluntário. Assim, aquele que comete ou tenta suicídio não quer morrer. Tem-se uma vítima, alguém que é vulnerável a cometer tal ato. Tomando dessa maneira, a vítima deve ser afastada dos riscos para os quais é vulnerável. A inacessibilidade aos meios de cometer suicídio é tida como estratégia preventiva. É a partir dessa concepção que, neste artigo, indica-se, sem desabonar a prática preventiva e seus objetivos, que algo escapa a essa forma de compreensão. É na proporção em que o sobrevivente ou aquele que consumou o ato são tidos como vítimas vulneráveis, pois não querem morrer, que se desprende o que aponta para a causa. A prática preventiva se ocupa, muito perspicazmente, em saber como evitar que esse mal se alastre e faça mais vítimas em todo o mundo. E é nesse ofício que a prática deixa escapar a causa do ato suicida, por negar que ali onde se nomeia uma vítima habita o maior dos riscos. A psicanálise possibilita pensar isso que escapa à prevenção. É pelo repúdio de Freud ao mandamento de amar o próximo que seguimos uma via. Nela, o mandamento “Não matarás”, bem como “Não te matarás” nega o mal que habita intimamente, sendo incapaz de impedir sua existência. O bem se encontra aí no máximo de sua função. Uma via cruel, segundo Lacan, na qual o bem do outro supõe a supressão de sua alteridade radical e que dispõe o bem como uma barreira para não se saber daquilo que está além. É nesse sentido que perfila a ideia de que aquele que se mata não quer morrer. É uma ideia que funciona como lacre sobre um ponto no qual apenas o sobrevivente pode vir a dizer algo, mas que não se faz escutar. O sobrevivente é convidado a calar-se, para seu próprio bem. A ideia que serve de lacre soterra o que Lacan diz na televisão francesa: “se ninguém nada sabe sobre o suicídio é porque ele procede do parti-pris de nada saber” (LACAN, 1993/1974, p.74). Reconhecer a falta de saber como essencial localiza como desafio para a psicanálise, e para seus praticantes, não se furtar diante do tema do suicídio sem que se façam predições em forma de saber sobre algo que é vazio.” (Brunhari, M. V. Darriba, V. A. Não te matarás:suicídio, prevenção e psicanálise. Disponível em: http://www.cbp.org.br/naotemataras.pdf)

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