Nota CEII SP [18/08/2018]

Estive pensando sobre a ideia de organizar o campo político a partir da metáfora topográfica Esquerda-Direita e o conceito sociológico de revolução. Sem entrar na polemica sobre o quanto esta metáfora é insuficiente para organizar os embates e possibilidades de ação políticos, fui pensando que a ideia de revolução ou a adjetivação “revolucionário” não estão necessariamente vinculadas à dita Esquerda ou à assim chamada Direita (ainda que a primeira seja usualmente associada à transformação e a segunda ao reacionarismo).

No Manifesto Comunista, Marx e Engels[1] constantemente se referem à burguesia como uma classe revolucionária por ter promovido uma transformação social paradigmática, porque destruiu as relações e instituições e laços feudais que prendiam o homem medievo. Quando se referem ao proletário como a nova classe revolucionária, fazem-no evocando a imagem daqueles que trazem o futuro nas mãos. A revolução parece, então, relacionar-se às ideias de ruptura e de novidade. Ulrich Beck[2] vai se referir à revolução como uma das formas de transformação epocal paradigmática: “A principal característica é que a revolução é uma questão não só de mudanças ao nível das mundivisões teológicas e filosóficas, mas também de superar o caráter natural assumido da ordem social e política e de lhe impor a utopia da maleabilidade da política e da sociedade”.

Esta maleabilidade utópica pode vir na formada revolução burguesa de 1789, da revolução comunista de 1917, ou na revolução nazista do 3º reich. Nos termos da ruptura e da novidade de Marx e Engels – ou “a superação do caráter natural da sociedade e política” + “utopia da maleabilidade da sociedade e política” de Beck – podemos falar em revolução genética, revolução da internet, revolução neurocientífica e revolução cibernética: forma de transformação paradigmática da sociedade, que colocam em questão os limites da política, da sociedade e do próprio humano. O que quero dizer é que a Revolução nem sempre é planejada, previsível ou controlada/controlável. A promessa do futuro pelas mãos da revolução não implica em um futuro mais alinhado com a ideologia de esquerda, e pode ser promovido fora da dinâmica da luta de classes – sem com isso dizer que está fora da sociedade de classes – sem nenhuma intenção política imediata, mas consequências políticas drásticas, inclusive sobre as formas de mobilização e luta social entre oprimidos e opressores, explorados e exploradores.

Neste sentido, falar em Esquerda a partir do monopólio revolucionário parece-me equivocado não apenas porque a revolução escapa aos limites ideológicos, mas porque a Esquerda age de forma crescentemente conservadora e mesmo reacionárias, na medida em que agem comprometidas apenas com sua própria existência e numa busca constante em “fazer girar para trás a roda da História” (Marx e Engels, 2010, p. 49) lutam por interesses atuais e não por interesses futuros.

[1] Edição da Boitempo, 2010.

[2] “A metamorfose do mundo”, 2017, pela Edições 70, p. 73).

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