Nota CEII SP [19/04/2019]

Tratamos a política como um grande reality show: intrigas, conversa de bastidores, fofocas sobre os participantes, de onde vieram e qual sua história… consumimos com avidez essas notícias e a mídia (dita “tradicional” e as ditas “alternativas) está feliz em pautar esta pequena política em troca de clicks e compartilhamentos. A forma como Carlos Bolsonaro assume o centro do palco é o maior exemplo disso, mas não seria difícil verificar que esta “moda” é antiga.

Não digo que é “cortina-de-fumaça”. Parece-me que é uma dinâmica que se estabelece na política nacional e que acaba pautando o debate. Confesso que tenho pouco interesse em saber com quem o zerodois dorme, o que ele come, qual o nome de sua poodle etc.
E aqui vai uma distinção: o nome do poodle do zerodois, da ex-namorada do zerotrês, a roupa que veste a primeira dama etc., interessa pouco. Nepotismo com o outro dono da poodle, presença de milicianos no gabinete, dinheiro suspeito depositado na conta… estas coisas (me parece) interessam ao debate público. Sobre a “família presidencial”, interessa-me particularmente os movimentos do zerotrês, em articulações políticas com a extrema-direita internacional.

Enfim, não é de agora que “assistimos” a política nacional como se fosse um reality show, um BBB, um Video Show sobre as celebridades globais de nossa novela favorita. E não vamos parar tão cedo.

Mas para além da pequena política destas intrigas, há disputas reais de poder que deveriam nos ocupar mais, que dizem respeito à expropriação de direitos, ao avanço neoliberal e desmonte de políticas sociais, ao entrelaçamento com o crime organizado e as milícias, ao autoritarismo e intervencionismo moral, à censura, ao discurso de ódio e discriminação, ao ataque à minorias, ao meio ambiente, à morte das populações tradicionais, à articulação de uma extrema-direita global fascistóide como “política internacional oficial-paralela” do governo brasileiro (liderada pelo zerotrês).
O engraçado com os “reality shows” é que eles mostram (show) muito pouco da realidade. Além do fato de que (supostamente) não têm roteiros, o que eles promovem é uma grande alienação com relação à realidade social. E estas são duas coisas que têm em comum com nossa forma de consumir política. O reality show “the bolsonaros”, além de (supostamente) não ter roteiro, nos desvia de questões efetivamente importante, retirando o que (parece-me) realmente importa das pautas de discussão da esfera pública e das notícias de jornal (ou pelo menos, colocando-as em segundo plano).

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *