NOTA CEII SP #2 [01/06/2017]

O que é escutar as pessoas quando estamos falando de uma organização? Como uma organização passa a escutar as pessoas. Pensamos muitas vezes que a escuta tem relação com a singularidade, que devemos estar abertos a o que chega e não estabelecer  a proris. Isto é um grave equívoco. A instituição onde se funda a ideia de escuta é a psicanálise. Esta instituição só pôde criar a ideia de escuta porque estabeleceu um método e regras para esse método. Mesmo que a regra seja a atenção flutuante de um discurso em associação livre só foi possível chegar nesta forma pelo acúmulo de métodos e estratégias organizativas, verificando na sua aplicação rigorosa aquilo que não atendia a o que se pretendia. Sem o rigor da aplicação de seus preceitos seria impossível existir hoje o conceito de escuta tal como o entendemos hoje na psicanálise. É como consequência do processo de desenvolvimento do método clínico que foram desenvolvidos os métodos organizativos das escolas de psicanálise e, assim como aqueles, estes só puderam acontecer (mais-um, cartel, passe, etc.) graças à aplicação rigorosa de métodos anteriores. Lacan são seria Lacan se não tivesse seguido à risca o enquadre para retirar dessa experiência não um novo método organizativo, mas um novo método de instituir métodos organizativos e consequentemente o avanço teórico da psicanálise.

Afirmar que precisamos escutar as pessoas, assim, no abstrato, é fugir da possibilidade de virmos a escutar as pessoas que participam da célula. O único meio de virmos a escutar as pessoas é estabelecendo meios organizativos (que passam, em maior ou menor grau, por um debate teórico) e testando a efetividade deles para atingir nossa proposta. O conjunto de normas que estabelecemos para nós mesmos é o principal recurso de mediação para efetivarmos um método organizativo que possa suportar simultaneamente as singularidades e um engajamento coletivo.

É necessário também entendermos que a busca por um método organizativo que possa ser em si crítica da ideologia não é a busca por uma forma organizativa específica, mas, antes, é uma nova forma de instituir normas que disciplinam os corpos. Nos organizarmos num sentido meramente anti-normativo e anti-disciplinador é repetir a forma ideológica do capitalismo do nosso tempo, que estabelece uma aparente autonomia que supostamente é capaz de agenciar as singularidades, mas que ao final oferece um regime de autonomização do indivíduo no qual este ampara sua pretensa autodeterminação e possibilidade de viver em sociedade sem se submeter a nada além da sua própria lei enquanto, na verdade, é completamente dominado pela materialidade do Capital; principalmente ali onde se acreditava ser mais livre.

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