NOTA CEII SP #2 [08/02/2017]

A leitura inicial do texto de Tales Ab’saber traz logo de início as contradições do governo Lula, como tentativa de intervir “nos dois polos opostos da vida nacional[1]”, não só através da articulação de seu governo, mas também “em seu corpo”. Essa última citação me parece trazer o quanto a figura de Lula é a encarnação das contradições sistêmicas do capitalismo, assim como da alienação política.

No Seminário 17, Jacques Lacan diz aos estudantes que participam dos movimentos de maio de 1968 na França: “É ao que vocês aspiram como revolucionários, a um mestre. Vocês o terão” (LACAN, 1992, p. 218).

O posicionamento de Lula em assumir o lugar que não é mais “alegórico”, a partir de 2005 com a crise do Mensalão, talvez possa ser lida como a oficialização do lugar de Mestre, tão demandado pela ex-querda “revolucionária” petista.

S1 – S2

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No discurso do Mestre, descrito acima, S1 é o agente, o mestre encarnado que comanda ao outro, S2, a produção de algo, objeto a, provocando a alienação pela inacessibilidade ao sujeito barrado (sujeito dividido em consciente e inconsciente).

Nas palavras de Zizek, 2008:

Então, o que é o Significante-Mestre? Vamos imaginar uma situação confusa de desintegração social em que o poder de coesão da ideologia perde sua eficiência: numa situação assim, o Mestre é aquele que inventa um significante novo, o famoso “ponto de basta” [point de capiton], que estabiliza novamente a situação e a torna legível; por definição, o discurso da universidade que então elabora a rede de Conhecimento que sustenta essa legibilidade pressupõe e baseia-se no gesto inicial do Mestre. O Mestre não acrescenta nenhum conteúdo positivo, apenas acrescenta um significante que, de repente, transforma desordem em ordem, em “nova harmonia”, como diria Rimbaud. Pensemos no antissemitismo da Alemanha na década de 1920: o povo se via desorientado, lançado numa derrota militar imerecida, numa crise econômica que consumia as economias de uma vida inteira, na ineficiência política, na degeneração moral… e os nazistas ofereciam um agente único, responsável por tudo isso: o judeu, a conspiração judaica. Eis aí a mágica do Mestre: apesar de não haver nada de novo no nível do conteúdo positivo, “nada mais é o mesmo” depois que ele pronuncia a Palavra (ZIZEK, 2008, p. 56-57).

O que o Mestre faz é simplificar um cenário complexo, encontrando um evento que pode ser considerado culpado pela desordem: não estaríamos falando da mesma coisa quando assumimos que o Golpe Parlamentar de 20016 é o culpado pela situação político-econômica caótica que vive o país. Nesse ínterim, é a figura do antigo Mestre que retorna, sob a demanda de trazer estabilidade, um Mestre já conhecido e que mostrou sua capacidade de assumir tal posição, de forma bem exitosa, no passado, uma vez que estabeleceu as barras (//) do Discurso do Mestre, possibilitando aos sujeitos que vivenciassem a alienação.

LACAN, JACQUES. O Seminário, livro 17: o avesso da psicanálise, 1969-1970. Rio de Janeiro: Zahar, 1992.

ZIZEK, SLAVOJ. A visão em paralaxe. São Paulo: Boitempo, 2008.

[1] Há um texto interessante de Áquilas Mendes, sobre esse mesmo tema, intitulado “Servindo a dois senhores: as políticas sociais no governos Lula”, disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1414-49802007000100003&script=sci_abstract&tlng=pt.

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