NOTA CEII SP #2 [15/02/2018]

Partirei da frase dita por Lula, no final de seu mandato, “Foi preciso um torneiro mecânico, metido a socialista, para fazer o país virar capitalista” (Ab’Saber, 2016, p. 20).

No livro organizado por Zizek, Um mapa da ideologia (1996), o autor retoma Peter Sloterdijk para falar sobre o cinismo como modo de funcionamento da ideologia, contrariando a versão de Marx, expressa na frase “disso eles não sabem, mas fazem”. Nesta concepção da ideologia atual, os sujeitos teriam consciência da distância entre a realidade social e a ideologia, no entanto continuariam a insistir na máscara ideológica. A frase seria atualizada da seguinte maneira por Sloterdijk: “eles sabem muito bem o que estão fazendo, mas mesmo assim o fazem” (Zizek, 1996, p. 313).

Para Sloterdijk haveria o Kynicim [cinismo] como rejeição popular à cultura oficial, que através do procedimento cínico [kynical] confrontaria a patética ideologia oficial dominante expondo-a ao ridículo e evidenciando o egoísmo, violência e reivindicações brutais do poder, “por exemplo, quando um político prega o dever ao sacrifício patriótico, o cinismo expõe o lucro pessoal que ele está retirando do sacrifício alheio” (Zizek, 1996, p.313).

Já o cinismo [cynicism] seria a resposta da cultura dominante ao procedimento cínico [kynical] como subversão: “ele reconhece, leva em conta o interesse particular que está por trás da universalidade ideológica, a distância que há entre a máscara ideológica e a realidade, mas ainda encontra razões para conservar a máscara” (idem).

Por fim, a negação do procedimento cínico subversivo, através do cinismo da cultura dominante seria uma espécie de perversão, uma “negação da negação”, um cinismo que nega o cinismo denunciante da máscara ideológica, um cinismo que reconhece os interesses dominantes camuflados, mas que recusa o processo cínico que o denuncia: “Esse cinismo não é uma postura direta de imoralidade; mais parece a própria moral posta a serviço da imoralidade – o modelo da sabedoria cínica é conceber a probidade e a integridade como uma forma suprema de desonestidade, a moral como uma forma suprema de depravação, e a verdade como a forma mais eficaz da mentira”    (idem).

Partindo para uma comparação do nosso cenário político atual, mais especificamente da militância petista defensora do Golpe como negação de uma realidade ideológica: Lula, símbolo da esquerda brasileira, desde início de seu mandato surpreende ao concretizar sua política a favor do Capital. Mesmo admitindo tal postura, a marca de governo de esquerda permanece, camuflada pela mísera política social que não provoca qualquer mudança estrutural. Diante da inegável evidência da entrada de Lula no status quo político capitalista, inclusive na corrupção que a constitui, o discurso do Golpe (para além do golpe parlamentar) aparece para negar as evidências anteriores, transformando verdade em mentira. Tentando resumir:

Máscara ideológica: PT como governo socialista

Kynism (subversão): evidências do favorecimento do governo federal às políticas do grande Capital

Cynism: discurso do Golpe para negar a aproximação do governo PT das políticas de austeridade (principalmente as Reformas), atribuindo a totalidade dessa adesão ao governo golpista. Nesse sentido o Golpe é o discurso cínico para negar a verdadeira direção do governo PT, mesmo com diversas declarações de seus líderes a respeito da defesa do capitalismo.

A frase que inicia esse texto, “Foi preciso um torneiro mecânico, metido a socialista, para fazer o país virar capitalista”, me parece o mais puro cinismo [cynism] (portanto consciente), na medida em que se sabe da máscara que reveste um partido e sua distância da realidade social, mesmo assim há o consenso de manter a máscara.

AB’SABER, TALES. Lulismo: carisma pop e cultura anticrítica. São Paulo: Hedra, 2016.

ZIZEK, SLAVOJ (Org.). Um mapa da ideologia.Rio de Janeiro: Contraponto, 1996.

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