Nota CEII SP [20/06/2019]

“Tornamo-nos membros integrais de uma comunidade não só quando nos identificamos com sua tradição simbólica explícita, mas também quando assumimos a dimensão espectral que a sustenta: os fantasmas que assombram os vivos, a história secreta das fantasias traumáticas transmitidas nas “entrelinhas”, pelas lacunas e distorções da tradição simbólica explícita. Na tradição judaica, há a famosa histórica do rabino que narra a um jovem pupilo a lenda de um profeta que teve uma visão divina; quando o jovem lhe pergunta, entusiasmado, “É verdade? Isso aconteceu mesmo?”, o rabino responde: “É provável que não tenha acontecido realmente, mas é verdade”. Da mesma maneira, o assassinato do pai primordial e outros mitos freudianos são, de certo modo, mais reais que a realidade: eles são “verdadeiros”, embora, é claro, “não tenham acontecido realmente” – sua presença espectral sustenta a tradição simbólica explícita. Referindo-se à obra recente de Ian Jacking, Santner traça uma linha tênue de separação da noção-padrão da mudança na rede narrativa que nos permite contar uma história coerente de nosso passado: quando mudamos de um registro narrativo para outro, que de certa forma nos permite “reescrever o passado”, o surgimento do novo “vocabulário descritivo” tem de reprimir/foracluir o excesso traumático de sua própria imposição violenta, o “mediador evanescente” entre o regime discursivo antigo e o novo; e esse “mediador evanescente”, na medida em que permanece não integrado ou excluído, contovo; e esse “mediador evanescente”, na medida em que permanece não integrado ou excluído, continua a assombrar a história “real” como sua Outra Cena espectral. Esse  mito forcluído (“primordialmente reprimido”) que fundamenta o domínio do lógos, portanto, não é simplesmente um evento passado, mas uma presença espectral permanente, um fantasma não-morto que tem de persistir o tempo todo para que o quadro simbólico presente continue operante.” (Zizek, S. O absoluto frágil. São Paulo: Boitempo, 2015, pp 74-75)

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