Nota CEII SP [20/06/2019]

Cheguei politicamente robusto na universidade graças aos cursinhos populares (Educafro/Uneafro). Com efeito, quando pus meus pés na sala de Filosofia, olhei para meu Manifesto do Partido Comunista e me despedi de Marx. Disse olhando para a capa da L&PM: “Nos vemos no final da graduação!”.

Esse gesto tosco foi fundamental para que eu pudesse ler Kant sem duvidar dos juízos sintéticos a priori, me possibilitou ademais ler tranquilamente a Suma teológica sem me preocupar se a lei natural que rege a autoridade política tinha materialidade concreta, enfim, me fez abandonar as certezas que tinha, confiar nos castelos filosóficos de outros e problematizar tanto o que eu tinha quanto o que os outros me ofereciam.

Havia sempre um gesto tresloucado de minha parte. A cada semestre eu encarnava algum filósofo e virava seu mais ardoroso discípulo. No velho prédio da Unifesp-Guarulhos não houve um espinosano mais atilado que eu. Meus companheiros logo perceberam que era cena e que no próximo semestre eu seria freudiano, adorniano, agostiniano, sartriano ou mesmo um fiel discípulo de Ibn Gabirol. “Eu era uma prostituta filosófica”, como diziam, “eu ia para a cama com todos!”.

Resultado: ao colocar meus olhos no Marx ao final da graduação, nem Marx era aquele Marx do início e nem Eu era aquele Eu. Como Dorian Gray estávamos irreconhecíveis um para o outro. Recomeçávamos do zero nossa relação!

 

Eu havia compartilhado um link com a venda de meu livro numa promoção ótima. Até que alguns amigos me disseram que o Amazonday era uma contraofensiva da empresa para debelar uma greve internacional. Por imperativo categórico classista, resolvi excluir a publicação, meio com peso na consciência e meio por saber que estou preso à rede do espetáculo das redes, quase inescapável – será que me tornei um indivíduo Bloom?

A Amazon foi ótima para mim. Sempre achei os preços da Cultura insuportáveis. Passei a comprar compulsivamente pelos ótimos serviços, entrega rápida, preço baixo e livro em ótimo estado. E eu, tão crítico sempre, nunca me questionei sobre os processos. Os leitores compulsivos sabem o quanto é bom ter um livro que se quer ler no menor tempo possível.

A greve me trouxe algo que aconteceu com minha mãe e comigo. Pelo fato de morar num local considerado perigoso – Morro do piolho – eu dava o endereço de minha mãe para ter a certeza de que os livros chegariam. Resultado, minha mãe fez amizade com o motoboy pois quase toda semana ele realizava a entrega de algum livro.

Em pouco tempo, o rapaz pode experimentar o café de minha mãe e até o bolo de fubá. Ela, como boa tiazinha de quebrada, descobriu que ele era casado, morava perto de sua casa e tinha uma filhinha que mostrou num smartphone chique e financiado: “menina linda!”. Logo, o rapaz quis me conhecer afinal; “quem poderia ler tanto assim!?”. Minha mãe, orgulhosa, dizia: “é que meu filho vai sê dotô!”

Tivemos essa afinidade à distância. Eu queria ter conhecido o motoboy da Amazon. Acontece, porém, que, no livro de Hoffmann, apareceu outro entregador. “O que houve com aquele moço?”, perguntou minha mãe. “Morreu num acidente fazendo entrega!”, respondeu seu substituto – segundo ela não tão simpático.

No capitalismo tardio, fomos acostumados a não ver os processos de produção e circulação. Invisibilizamos os trabalhadores. Hoje desfrutamos de vídeo conferência gratuita com celulares de ótima qualidade e preferimos não saber que foram feitas por mãos infantis de indianos que sucumbem nas fábricas sem proteção ou direito à infância. E eu, tão crítico ao capital, fiquei sem conhecer o gentil motoboy da Amazon que morreu na exploração direta.

Viva a greve da Amazon!

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