Nota CEII SP [20/09/2018]

Em coluna do Jornal Folha de SP, o professor Pablo Ortellado (EACH/USP) fez uma análise teórica sobre o presidenciável dep. Jair Bolsonaro. A ideia central de Ortellado é que Bolsonaro não é exatamente “fascista”, de que a forma de organização política de Bolsonaro não é bem explicada pelo conceito de fascismo e não corresponde ao fascismo histórico. Ao que tudo indica, Ortellado seguia a linha de “tentar entender para combater”, de que é necessário pensar com rigor e cuidado sob pena de confundir alhos com bugalhos, ou talvez, gato por lebre. Se você confundir, pode ficar inutilmente tentando capturar um gato usando uma cenoura.

Ao compartilhar sua coluna no Facebook, Ortellado foi massacrado por críticas. Talvez a coluna que lhe rendeu mais ataques virulentos. Em linhas gerais, quando Ortellado ousou pensar e questionar a deseignação dada genericamente a Bolsonaro, os críticos o acusaram de legitimar ou atenuar o risco-bolsonaro. Isto apesar de Ortellado explicitamente dizer que Bolsonaro é “é autoritário e militarista e manifesta desprezo pelos limites constitucionais impostos pelo sistema de direitos humanos e pela divisão dos poderes”.

Entre os críticos, Tales Ab’Saber se manifestou de forma contundente, acusando-o de legitimar democraticamente um candidato neofascista, que representa o “gozo regressivo autoritário” das elites etc., e elastece o conceito de fascismo para adequar-se à sua agenda de mobilização: “o significante fascista no caso se impôs historicamente e socialmente, e escolástica académica não dá conta do fenômeno político concreto”, diz Ab’Saber.

Deste relato, gostaria de apresentar algumas provocações. 1) Isso me elembrou muito a perseguição que Arendt sofre quando, no Julgamento de Eichmann, questiona a leitura hegemônica do nazismo e do papel das lideranças judias, 2) também me veio à lembrança o livro de Zizek “alguem disse totralitarismo”, e como certos significantes são apropriados por teóricos e mobilizações científicas para serem instrumentalizados. Apesar de Ab’Saber falar em “fenômeno político concreto” em oposição ao pensamento (“escolástica academica”), é ele quem assume uma posição bastante idelista e antidialética, ignorando as experiências históricas de fascismo para mobilizar o conceito conforme sua necessidade e agenda política  (torná-lo significate vazio). Mesmo que isso implique em atrair gatos com cenouras.

Por fim, 3) este me parece mais um exemplo do antagonismo “pensamento x ação”, universalidade x subjetividade engajada… e aí penso o seguinte: há anos a esquerda vem atacando o “pensamento”, dizendo que ele pouco ou nada vale e que o importante é agir, colocar a mão na massa. No campo da saúde mental, era bastante comum dizer-se que o importante é o “otimismo da prática” contra o “pessimismo da razão” (citação de GRasmci tirada de contexto). Aos militantes, resta agir, porque o pensamento já está dado. Isto sem dúvida leva a uma mobilização alienada da política que produz e uma base popular que se identifica muito mais com discursos anti-intelectuais (como o de Jair Bolsonaro) do que com o debate de ideiais (não há exempli disponível entre os candidatos). No máximo, um pensamento fetichizado por números e gerencialista (Haddad, Ciro, Meirelles etc.) ressoa.

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