Nota CEII SP [21/06/2018]

A psiquiatria atual está centralizada na medicação para solução da totalidade dos casos, seguindo o que Costa-Rosa (2013) chama de Psiquiatria DSM. Trata-se de uma adaptação da psiquiatria ao modo hegemônico do sistema capitalista, através de suas reformas, uma vez que é uma das áreas da medicina com maior plasticidade na adaptação ao capitalismo e que se transformou em ferramenta para sua expansão (SILVA JUNIOR, 2016). Uma das modificações que a psiquiatria se impôs (diante do panorama mercantil) foi sua mudança epistemológica, abandonando a causalidade e adotando somente a classificação, em suma, ela sai da reflexão para a descrição, da nosologia para a nosografia (SILVA JUNIOR, 2016). Consideramos que essa mudança na ciência médica mental seja uma das características mais evidentes no campo da saúde das influências sofridas do Laço Social, a partir do momento que não é mais conveniente (ou necessário para seu objetivo final – o mercado) o estudo crítico sobre o que provoca o sofrimento psíquico, mas a identificação dos sintomas e o tratamento medicamentoso. Aliada a esta transformação verificamos um grande aumento dos sintomas catalogados, como uma infinita fragmentação de sintomas maiores e, consequentemente novos itens diagnósticos correspondentes a novos medicamentos. Consonante a esta primeira mudança, encontramos uma segunda ligada à dissolução da carga moral que o termo “doença psiquiátrica” trazia, como solução o termo “transtorno” foi introduzido, dando início ao empreendimento da psiquiatria ligado à indústria do consumo, em uma bem sucedida parceria do DU + DC (SILVA JUNIOR, 2016).

O marketing farmacêutico estava com o terreno preparado para sua atuação na psiquiatria, com enorme capacidade de fazer expandir um mercado através da aceitação das patologias que não diziam nada sobre o sujeito, e para redefinir sofrimentos normais como patologias: “As pessoas normais representam uma fatia inexplorada de consumidores potenciais de medicamentos. Para que este mercado seja conquistado, basta que sejam convencidos que estão ou que correm sérios riscos de ficarem doentes” (SILVA JUNIOR, 2016, p. 232). Esse pensamento em conjunto a Psiquiatria Preventivo-Comunitária foram fundamentais para a expansão da psiquiatria como mercado em nossa sociedade.

Desvendando o marketing farmacêutico, Vince Perry, citado por Silva Junior (2016) dita suas estratégias: “1. Aumentar a importância de uma doença; 2. Redefinir uma doença já existente, de modo a diminuir o preconceito em torno dela; e 3. Desenvolver uma nova doença de modo a construir o reconhecimento para uma necessidade não atendida pelo mercado” (SILVA JUNIOR, 2016, p. 232)

É assim que os diagnósticos de depressão, de forma generalizada, o transtorno bipolar, o TDAH entre outros passam a ser direcionados à indústria DSM, se aproveitando de um mal-estar produzido pela nossa forma de vida, sem desconsiderar o sofrimento inerente do ser humano, mas que é redimensionado como possibilidade de um mal maior, do qual o sujeito pode ser atingido de forma externa e do qual precisa se precaver.

Essa é a forma com a qual a psiquiatria responde às novas formas de subjetivação e a atualização dos sintomas no mundo contemporâneo. A resposta nos leva à expropriação do saber inconsciente e à individualização do sintoma, na medida em que “a invisibilidade dos conflitos gerados no e pelo laço social recai sobre o sujeito, individualizando seus impasses e em alguns casos patologizando ou criminalizando suas saídas” (DEBIEUX ROSA, 2017). Como resposta aos sintomas e fenômenos que a psiquiatria cataloga em seu grande livro de verdades, o DSM, a solução está na própria ampliação do mercado e na permanência do sujeito no lugar de consumo, estamos falando aqui do consumo de consultas, exames e medicamentos.

Esse casamento entre DU e DC faz com que se crie a ilusão de que todos os problemas podem ser resolvidos através da ciência, desde que se tenha dinheiro para pagar (SILVA JR; BEER, 2017). Nosso exemplo mais evidente aqui se expressa na equação:

psiquiatria + indústria farmacêutica = expansão do mercado consumidor

Mas essa equação não tem valor exato, ou seja, não produz apenas a expansão do mercado, uma vez que traz uma série de consequências ao sujeito que a procura, que paga com sua alienação sobre o saber inconsciente e com uma possível iatrogenia.

Em resumo, a perfeição do circuito do capitalismo somado à ciência pode ser verificada com relação ao sofrimento psíquico e o consumo de medicamentos através da psiquiatria DSM: o sujeito vivendo no MCP, expropriado de seu saber e impelido à repetição de seu fazer, vê aparecer-lhes sintomas que dizem algo, contudo esse algo não pode ser escutado pelo médico, a quem se endereçam tais sintomas. A medicina objetifica o sujeito e responde ao seu mal-estar com a medicação, objeto de consumo que faz parte do próprio MCP que o sujeito veio se queixar. O sujeito no seu lugar de consumidor, que já consumiu a consulta, agora é direcionado ao consumo de medicamentos, que irá tamponar o que o modo de viver no sistema capitalista produziu, expropriando a verdade do laço social apresentada inicialmente como sintoma.

No caso do aumento do mercado consumidor de medicamentos psiquiátricos, receitados tanto por psiquiatras quanto médicos de outras áreas, apontamos para uma ampliação a partir de uma mudança nas nomenclaturas que combateu a estigmatização. O que antes podia ser diagnosticado como psicose maníaco depressiva, por exemplo, passou a ser chamado de transtorno bipolar, diminuindo o estranhamento e aumentando a aceitação dessa condição dita orgânica. No caso dessa “patologia”, foi considerável o aumento dos diagnósticos realizados que levaram o nome de transtorno bipolar, como exemplo entre 1994 e 2003 houve um crescimento de cerca de 4000% do diagnóstico entre a crianças e adolescentes estadunidenses (ABP, 2007)

Na perspectiva da psiquiatria e no DU, só se considera aquilo que esteja em sintonia com a medicina hegemônica, organicista e objetificadora. Tudo aquilo que aparece como sintoma, demonstrando a divisão do sujeito, precisa ser tamponado, e para isso servem os medicamentos, na Psiquiatria DSM.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *