Nota CEII SP [25/08/2018]

A esquerda nacional abriu mão do pensamento em nome da estratégia. Isto não é novidade, mas durante as eleições de 2018 pareceu-me ainda mais evidente o problema com esta operação política. Depois de 2013, ficou claro que o PT partiu para a disputa de narrativas históricas. Não tenho lembrança de uma política tão voltada para o convencimento, como aquelas que vi desde 2013: narrar 2013, descrever, interpretar, nomear e assim por diante era o grande elemento em disputa. Seguiu-se a isso a disputa pela narração, descrição, interpretação e nomeação da queda de Dilma. Os gritos cínicos contra os golpitas no plano Federal, os mesmos com os quais o PT se aliava nos Estados. Seguiu-se a narrativa do golpe, veio a prisão de Lula, a candidatura fake de Lula e o lançamento do poste: Haddad, o professor.

Quando lançado para prefeito de SP, Haddad era gestor. Nesta eleição ele assumiu a fantasia de professor e reescreveu sua biografia como “professor Haddad”. Haddad concorrendo para presidente teve quase tantas fantasias quando Doria à frente da prefeitura de SP: depois de tirar a fantasia de “Lula sou eu, eu sou Lula”, ele usou a fantasia do “Andrade”, e finalmente a de professor. Mas estou divagando.

Nestas disputas de estórias e fantasias, começou-se a tentar colar no “fenômeno Bolsonaro” a fantasia de nazista. Coisa que, efetivamente, não explica seu crescimento e vitória. Era uma descrição, de fato, falsa. Junto com o nazismo, vinha a explicação não-unânime de um fenômeno fascista. Quando alguns propuseram que Bolsonaro parecia fascista, mas expressava um fenômeno político distinto do fascismo histórico, estes críticos foram acusados de tentar legitimar ou normalizar Bolsonaro, foram atacados e silenciados. O mais curioso é que alguns dos detratores desta crítica assumiam que, de fato, o conceito de fascismo não se aplicava bem a Bolsonaro: mas não importava, era estratégico nomeá-lo assim. O conceito, o pensamento, a teoria e a experiência histórica não importavam. Importava o pragmatismo da disputa eleitoral.

Este pragmatismo a-teórico da esquerda nacional, contudo, foi péssimo para o pensamento e ação política: quando se falava com indecisos ou com eleitores de direita, a fantasia de nazista não colava e, pelo contrário, iniciava-se uma discussão idiota sobre nazismo ser de esquerda. O que nunca entendi bem é qual seria a necessidade estratégica de falar em nazismo… Talvez por evocar a “guerra cultural”? Por colocar em pauta a perseguição de grupos identitários e o caráter racista e homofóbico de Bolsonaro? Por outro lado, temos uma história de formação autoritária e de ditaduras, que explicaria Bolsonaro sem “mases” ou “poréns”. E que ao contrário da discussão forçada do nazismo, obrigaria aqueles confrontados com a crítica à Bolsonaro a se posicionarem sobre algo bem concreto, bem mais próximo social, cultural e historicamente. Confrontaria esses eleitores com contradições explícitas de Bolsonaro gravadas em áudio e vídeo para quem quiser ver. No lugar disto, a esquerda optou por deformar o pensamento em nome da estratégia eleitoral… optou pela replicação da lógica política tradicionalmente associada à direita verde e amarela.

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