Nota CEII SP [30/05/2019]

Esquerda x Direita

Recentemente, discutiu-se sobre a identidade “político-ideológica” (por assim dizer) de alguns pseudo-intelectuais de redes sociais das mídias tradicionais (TV, jornal e rádio). Seria fulano de direita ou de esquerda? E beltrano e cicrana?

Tenho sempre uma grande dificuldade de organizá-los assim, e bastante resistência a respostas axiomáticas como “quem não é de direita nem de esquerda, é de direita”, “quem se diz neutro é de direita”, “votou assim, tirou foto com não-sei-quem, prefere vinho do que cerveja… DIREITA!”. Enfim… por um lado me parece que se fala hoje em uma esquerda que não há mais, de uma esquerda idealizada que não se encontra concretamente (nem mesmo no PCO… blasfêmia!). E é óbvio que isso faz de mim alguém de direita, né? Voltamos às fórmulas prontas, ao H2O das análises políticas. Bem, há dois autores que recolocam a questão do espectro político de uma forma que faz mais sentido para mim.

  1. Ulrich Beck, em 1995: “A metáfora política esquerda-direita, que nasceu com a sociedade burguesa, é provavelmente inconsquistável, a menos que ‘destronada’ por alternativas. No futuro, as coordenadas da política e do conflito serão cuidadosa e hipoteticamente localizadas aqui e abordadas, como se fosse utilizada uma varinha de condão, em três dicotomias: seguro-inseguro, dentro-fora e político-não político. Neste caso, estamos preocupados com três questões fundamentais. Primeiro, qual a sua atitude em relação à incerteza; segundo, em relação aos estrangeiros; e, terceiro, em relação à possibilidade de remodelar a sociedade?” (Beck, [1995] 2012, p. 79).
  2. Žižek em 2009 (ou pelo menos o Žižek de “Vivendo no fim dos tempos): “Na democracia pós-política de hoje, a tradicional bipolaridade entre centro-esquerda social-democrata e a centro-direita conservadora vem sendo substituída pouco a pouco por uma nova bipolaridade entre política e pós-política: o partido tecnocrata liberal, tolerante e multiculturalista do governo pós-político e sua contrapartida populista de direita da luta política apaixonada – não admira que os antigos adversários do centro (conservadores ou democratas cristãos e social-democratas ou liberais) sejam tantas vezes forçados a unir forças contra o inimigo comum” (Žižek, [2009] 2012, p. 11).

Então, não estou dizendo que é tudo igual, que não há mais distinção político ideológica, ou sequer que a distinção esquerda-direita seja inválida; mas apenas sugerindo que talvez as demarcações tradicionais não estejam dando conta das novas configurações da política, e seja preciso repensar a forma como nomeamos as tensões ideológicas na contemporaneidade. Beck acredita que a disputa ideológica pode ser melhor explicada, localizada e, assim, pode-se melhor posicionar-se na arena política a partir de 03 questões: (1) como se lida com os riscos socialmente produzidos, (2) como se posiciona com relação à exclusão-exploração e (3) como se posiciona quanto ao político propriamente dito, i.e. como se posiciona quanto à possibilidade de transformação social. Žižek radicaliza esta posição anos depois, sequer havendo uma disputa entre político e não-político, mas exclusivamente uma disputa dentro do não-político. Mas se forma muito similar a Beck (e que dialoga com outros textos do sociólogo alemão), Žižek afirma que os “quatro cavaleiros do apocalipse” do capitalismo global são (1) as crises ecológicas e (2) as consequências das revoluções biogenéticas, (3) os desequilíbrios do próprio sistema capitalista e (4) a crescente (e explosiva) divisão e exclusão social.

Seja como for, concordemos ou não com eles, minha questão é pensar se a metáfora espacial esquerda-direita ainda é suficiente para organizar os fenômenos, dinâmicas e disputas políticas concretas.

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